segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Filha

Quando fiquei grávido, confesso que até o ultrassom que descobriu o sexo do bebê - menino - alimentei a expectativa de ser pai de uma garotinha. Pela graciosidade, sim, mas acho que principalmente pra tentar me conciliar com estes seres tão fascinantes e aterradoramente misteriosos. Que maneira melhor do que fazendo uma de sua própria costela? Sei, é bobagem. Todas tiveram um pai e nem por isso os homens aprenderam mais sobre elas. Mas não seria porque pais não aprendem muito sobre filhos de qualquer sexo? Tem a manutenção da ideia e da prática de que educação (e proximidade física e emocional) são responsabilidade da mãe.
No meu caso, tenho em mente que a tal ideia e prática não são saudáveis. Eu próprio, enquanto tive meu pai vivo jamais tive dele qualquer proximidade. O que me parece bastante comum por aí. E péssimo para a formação de personalidades. Agora, por estar separado, tenho que me contentar em ver meu menino, de 9 anos, apenas 1 dia por semana, ou menos. Não acho que seja o ideal. Penso que paternidade responsável deveria se sobrepôr a desejos egoístas dos cônjuges quando pensam na separação. Sei que tinha e tenho forte ascendência sobre ele. Ensinei-o a escrever, a desenhar no computador, a montar brinquedos, a gostar de ciência e matemática. Cozinhava pra ele e mostrava que homens também fazem serviço de casa. E queria muito, mas muito mesmo, ter continuado a ensinar sobre como é possível amar-se integralmente, incondicionalmente e eternamente a mulher que se tem como companheira.
Não, não sou perfeito, como o texto pode indicar. Ao contrário, tenho inúmeros defeitos. O principal, não ter a capacidade de corrigir o rumo da embarcação quando nitidamente ela vai encontrar o iceberg. E pior, não aceitar ajuda de quem a oferece até insistentemente (a esposa e a terapeuta).
Bem, apesar de ser outro o homem com quem meu filho tem contato diário agora, ainda sou eu a sua referência. É comigo que ele quer ir ao estádio ver o nosso time (o Santos; sempre achei que filhos que não torcem pelo mesmo time do pai é porque não tem deles a atenção mínima necessária). É comigo que ele divide as pequenas e grandes descobertas da sua jovem vida. E me deixa um pouco orgulhoso e muito triste quando reclama por ter que ir embora no domingo à noite.
Amo meu filho e descobri que a paternidade tem algo de muito especial, qualquer que seja o sexo da criança. Sobretudo está ali um pequeno ser humano. A humanidade está muito acima das idiossincrasias de gênero.
Mas que sinto uma pontinha de frustração cada vez que vejo uma garotinha sapeca, com seus vestidinhos e fitinhas no cabelo, sinto sim.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Futuro sobre rodas

Alguns posts atrás falando do Rubinho Barrichello expressei meu gosto pela Fórmula 1. Pessoas que gostam de automobilismo frequentemente também gostam de dirigir e de entender de automóveis. Não é bem o meu caso. Até gosto da tecnologia automotiva, mas acho o carro como transporte individual um erro a ser corrigido pelas próximas gerações. O trânsito nas grandes cidades já está saturado e além disso há a poluição do ar e sonora e uma quantidade absurda de mortes causadas em acidentes.
Recentemente, fez-se aqui em São Paulo um desafio entre as diversas formas de transporte em que se quis saber que tempo cada uma demoraria para fazer um certo percurso. Conforme o Último Segundo- IG, "todos sairam da Praça Gal Gentil Falcão, no Brooklin, às 18h, mas apenas o ciclista chegou à Prefeitura, no centro da cidade, às 18h22. Após o ciclista, chegaram um motociclista, um bike courrier (ciclista de entregas rápidas), um helicóptero, um ciclista experiente, um "ciclista iniciante por vias alternativas" e um motoboy. O homem que foi correndo chegou quase quinze minutos antes do carro, que demorou 1h22m".
Mais jovem, até quis ter carros, e tive. Mas não combinava com meu ideal de sociedade. Hoje não tenho carro e minha habilitação já perdeu a validade há algum tempo. Com os números apresentados no desafio, acho que não ganharia grande coisa se tivesse um automóvel.
Acharia tão mais agradável poder andar pelas ruas sem ter que competir com essa infinidade de veículos. No entanto há lugares em que pedestres não têm como transitar sem correr algum risco de acidente. Vias expressas são um terror, muitas vezes exigindo que se ande várias dezenas de metros para se transpor uma distância que em linha reta seria de poucos metros. Cria-se também o problema da impermeabilização do solo pelo asfaltamento. Aqui em São Paulo, qualquer cuspida de São Pedro provoca alagamentos por toda a parte. E, claro, trânsito ainda mais pavoroso.
Nem vou falar muito do carro como sonho de consumo, como símbolo de status. Tenho expectativa de que os seres humanos do futuro possam se apegar a valores mais significativos. Se a idéia é conseguir reconhecimento de todos, que ao menos seja por algo que valha para todos.
E tem os males causados aos próprios motoristas como sedentarismo, estresse nos congestionamentos e custos de utilização e manutenção cada vez maiores. Será que não ganharíamos todos se fizéssemos cidades à moda de Amsterdã, onde a bicicleta é o meio de transporte preferencial?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os homens são mesmo frios e insensíveis como parecem ser?

Nada mais equivocado. Os homens não são nada insensíveis, tanto que nas horas vagas fazem coisas como compor a Nona de Beethoven, pintar girassóis e construir a Notre Dame. Eles apenas são seres práticos. Se acharem que a noite foi ótima, mas vocês não foram feitos para caminharem juntos pela vida, não vão ligar no outro dia. Mas isso não é frieza e sim, economia. Somos mais insensíveis somente no sentido em que conseguimos lidar melhor com rejeições. Assim, de certa maneira, podemos nos considerar vencedores, por sermos melhor adaptados a sobreviver nessa selva de desencantos que é a vida amorosa de todos nós.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ode às balzacas

Por causa de Maria Luiza Mendonça que colocou Aline Moraes, Taís Araújo e Camila Morgado no chinelo. E nem estou falando de beleza física, embora ela esteja em ótima forma, mas da sensualidade pura que só o tempo  e o gosto pela coisa ensinam. Quem viu o capítulo de hoje de Dever a Dívida há de concordar comigo!
Me perdoem as jovens, mas experiência é fundamental.

domingo, 18 de outubro de 2009

Dying young




«Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.»
Lc 22, 42

Passei a adolescência achando que não viveria além dos 30. Por causa do meu problema cardíaco, quase congênito. Mas houve a evoluçao da medicina e o que seria fatal 20 anos antes tornou-se quase banal a partir dos anos 80. Ednardo cantou: "Me poupa do vexame de morrer tão moço". O problema é quando o vexame é continuar vivo quando a mocidade já se foi. Será que Guevara venderia tantas camisas se não tivesse morrido nas selvas bolivianas? E Cazuza, ainda inspiraria tantos jovens?
Pois que a ciência me salvou, mas não às vítimas da Aids, que além de Cazuza nos tirou Fred Mercury, os irmãos Henfil e Betinho, a musa Sandra Bréa, Renato Russo e vários outros jovens talentos e ativistas. A música da vida não toca igual pra todo mundo. Para uns termina num breve molto vivace. Para outros prossegue num adágio interminável e monocórdico.


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ratificação

A porta do cozinha estava aberta e por ela entrou um rato. Chutei-o com força pra fora, bem longe. Mas foi chutado de volta com força igual ou maior. E veio outro, também chutado. E outro, e outro. Dezenas, centenas, milhares. Alguns batiam nas paredes e caíam mortos ou agonizantes. Outros sobreviviam e se espalhavam pelo cômodo. Em breve eu já não tinha para onde andar. Tampouco os ratos, que já se empilhavam em torno de mim. Quando só minha cabeça ainda estava a mostra, desmaiei. Ao acordar, com as carnes já carcomidas dei tremendo grito de dor, do que se valeu um dos bichos para entrar em minha boca. Desmaiei novamente. E acordei do pesadelo.
Pus-me a pensar na vida, no passado recente e no futuro imprevisível. Não posso dizer que preferiria estar no pesadelo, mas ter gasto tempo fazendo a comparação dá mostra de que as coisas não vão muito bem.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Visão

Ontem a vi de novo depois de 16 meses. Como não virei estátua de sal nem de pedra e ainda dormi bem à noite, tenho que concluir que a alma humana é capaz de se adaptar até ao quinto dos infernos.

domingo, 11 de outubro de 2009

A casa do sol nascente

Música de véio. Da boa. Não deixam incorporar o vídeo, mas esse é legal ver por lá, mesmo.
Novidade visual no VocêTubo.

http://www.youtube.com/watch?v=C86oH5RwyJg

Nobel da Paz

O Obama é gente boa, meu povo. Inteligente a escolha dos caras do Nobel. Amarra o homem a decisões que favoreçam a paz. Ou ao menos vai deixá-lo de cabeça muito quente se tiver que decidir invadir a Coreia do Norte ou o Irã.
Eu tô pensando em fazer algo parecido. Vou pedir a D. Zilda que entregue o prêmio de melhor nora para uma amiga minha. Quero ver se escapa!

IP florido

Tem aquela canção sertaneja das antigas, Ipê florido, de Tião Carreiro e Pardinho, que dona Zilda, minha mãe, canta maravilhosamente em dupla com o amigo Celso. Um jovem da era internética ouvindo deve imaginar aquele numerozinho de 12 dígitos que identifica cada computador na rede todo enfeitadinho. Ou talvez camuflado por um servidor proxy.

sábado, 10 de outubro de 2009

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Cérebro em obras

Desculpem o transtorno

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Pra quem não conhece ainda. Imperdível.

http://ela-fala-e-sai-andando.blogspot.com

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Coisas úteis a gente perde pra sempre. Já as inúteis... onde vou colocar tanta tranqueira?

sábado, 3 de outubro de 2009

Falha nossa

Costumo usar o Google Chrome como navegador. Hoje, abrindo este blog no IE, vi que o layout estava absolutamente desfigurado, medonho, o que deve ter provocado talvez alguma estranheza entre meus milhares de leitores. Peço desculpas por esta falha básica. Qualquer um que se atreva a trabalhar com HTML sabe que se devem testar a página em todos os browsers. Como não disponho de todos e não tenho disposição de instalá-los, peço por gentileza aos amigos de sempre que me alertem caso o visual difira do modelo abaixo.

Obrigado

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Entrevista do Tuta, Jovem Pan

Para quem quiser conhecer um pouco da história viva do rádio e da televisão

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3986797-EI6581,00-Tuta+Ninguem+faz+sucesso+sozinho.html

domingo, 13 de setembro de 2009

RRRRRRRRRRRRubiiiiiiinho!!!



Sempre se comenta como impensável um país como o Brasil ter tantos nomes importantes na Fórmula 1, com 8 títulos mundiais, enquanto que a nação do automóvel, os EUA, nunca tenha tido um nome de peso; embora, por conta do orgulho característico, eles prefiram alimentar competições bobas, dos autoramas gigantes de circuitos ovais, como Indy e Nazcar.

Mais impensável ainda é um menino de nove anos ser influenciado por dois tios caipiras que mal tinham começado a capturar os sinais da civilização eletrônica, na primeira TV comprada tão logo chegou ali a eletricidade. Era 1972, e a pequena Ribeirão do Sul, no interior de São Paulo, principiava a perder sua inocência sertaneja. Eu já morava aqui na Grande São Paulo, mas naquelas férias de inverno comecei a acompanhar junto daqueles dois malucos, gêmeos nada parecidos, o que seria o primeiro campeão mundial do Brasil, Emerson Fitipaldi. Fui pé quente, não? Aí veio o segundo do Fiti em 74, depois os três do Piquet e mais três do Senna.
Quando aconteceram os terríveis e fatais acidentes de maio de 94, fiquei pelo menos uns três anos sem querer torcer novamente. E, ainda por cima, era a fase Schumacher e não teria mesmo muita graça torcer. Esta fase, aliás, marcou a valorização do carro em relação ao piloto. Sem um bom equipamento e uma boa equipe nenhum gênio se daria bem desde então.
Mas ninguém mais sofreu com o alemão do que o nosso Rubinho. Herdeiro das expectativas de milhões de órfãos do Senna, sofreu com a óbvia preferência da Ferrari pelo Schummy. Acabou virando alvo de chacotas de todos aqueles que não entendem que alguém com o bom caráter que ele tem, dificilmente consegue se dar bem num meio onde certamente prevalecem o murro na mesa, os conchavos e o jogo de interesses em que patrocinadores poderosos dão a última palavra. Por causa dessa personalidade, sempre me identifiquei com o Rubens.
Pode ser que ele não seja campeão neste ano, a diferença para o Button é grande, mas cada corrida ganha é também a vitória de todos aqueles que gostariam de viver num mundo onde todas as regras fossem bem claras e, principalmente, justas.
E vale também aquela frase: Rubens é brasileiro e não desiste nunca.

Tchã, tchã, tchã. Tchã, tchã, tchã.

domingo, 6 de setembro de 2009

Você descobre que está velho quando...

Quando vê que o Jornal Nacional está completando 40 anos e se lembra que assistiu à primeira edição.
Pois é! Eu tinha só seis anos, mas me lembro da cabeleira longa do Cid Moreira e da vinheta que pouco mudou desde então.
Estas lembranças, contudo, me fizeram lembrar de outras coisas daquele passado. Das que desapareceram, das que mudaram e das que permaneceram.
Da política, afora o regime de exceção, já exaustivamente descrito neste blog, lembro ainda que não elegíamos também governadores e prefeitos das capitais. Tínhamos apenas dois partidos legais: Arena e MDB. A primeira, o partido de fachada dos militares e o segundo, refúgio das lideranças oposicionistas que conseguiram não ser cassadas, exiladas ou mesmo mortas. Propaganda eleitoral era tão somente apresentação muito rápida de fotos acompanhadas dos nomes dos candidatos. Fora dos meios de comunicação as campanhas eram centradas nas distribuição de santinhos e principalmente pela farta distribuição de favores aos eleitores, como pares de sapatos que eram dados um pé antes da eleição e outro depois caso o candidato fosse eleito. Também era comum o oferecimento de dentaduras postiças e muitos outros tipos de brindes, práticas hoje felizmente proibidas.
Saindo da política, tínhamos os entusiasmantes festivais de música de onde saíram ou se consagraram muitos de nossos principais compositores e intérpretes, como Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, para ficar em poucos nomes.
Sílvio Santos, antes de ter sua própria emissora, fazia seu eterno programa pela Globo, aos domingos. Chacrinha, que eu particularmente não gostava, se muito não me engano, sempre apresentou seu programa aos sábados (garotinho, eu ainda não conseguia entender o que chamava tanto a atenção dos marmanjos nas chacretes). Ney Matogrosso e os Secos e Molhados eram uma ousadia inominável para uma TV censurada e para uma sociedade ainda puritana. Ousadas também eram as novelas das dez da noite, tanto em dramaturgia quanto em cenas como a de Sônia Braga mostrando suas belas coxas e quase algo mais subindo num telhado para apanhar uma pipa, em Gabriela. E havia Ziembinsky, Paulo Gracindo e Lima Duarte em atuações jamais alcançadas posteriormente (e lembrem-se que eu sequer tinha idade para avaliar toda a grandeza daquilo). E ainda haviam os “Casos Especiais”, textos consagrados da literatura e do teatro em episódios únicos com resultados memoráveis como o Médico e o Monstro em que se destacou o imortal Sérgio Cardoso no papel principal.
Uma curiosidade da época é que pela pouca quantidade de aparelhos de TV, era comum que famílias se reunissem em alguma casa que gozasse do privilégio de ter o aparelho (em preto e branco e a válvula). Na verdade, as visitas sociais já eram comuns até aqueles tempos e a disseminação posterior dos televisores acabou por produzir um isolamento das famílias. Também não havia a preocupação com a violência, de forma que era possível andar-se tranquilamente à noite, mesmo em lugares onde não havia qualquer sinal de polícia.
Era um tempo em que se podia comprar a crédito na mercearia da esquina. Mas nada de burocracia; o dono entregava uma cadernetinha ao cliente onde eram anotadas as compras do mês e que seriam pagas de uma vez num dia determinado. Pão e leite eram deixados diariamente na porta do freguês, que ao acordar, poderia apanhá-los sem que jamais acontecesse de lhe subtraírem os alimentos; o leite vinha em garrafinhas de vidro retornáveis (e nem se falava ainda em desequilíbrio ecológico).
Telefonia era estatal e as linhas custavam caro. Em compensação, as fichas eram baratinhas e podiam ser compradas em unidades. Mas era preciso auxílio de telefonista para ligações interurbanas. Já para se ouvir música, só pelas rádios AM (FM ainda demoraria um tantinho para chegar) ou com os discos de vinil, que se podiam ouvir com as vitrolas. Curioso dos discos é que os artistas freqüentemente os lançavam com uma única música, que se repetiam dos dois lados. Tinha também as fitas k7 que continuaram úteis até recentemente.
A moda dos anos 70 e que era uma coisa tenebrosa, tanto a masculina como a feminina. Eram aquelas pantalonas ridículas, maquiagem carregadíssima e despropositada. E os cabelos então? Todo aquele volume e colorido artificialíssimo. Deus nos livre! Pior, só a moda das cortes modernistas com aquelas perucas e o pó-de-arroz.
Nas ruas, dominavam os fuscas. A gasolina era muito barata e os mais abonados tinham carrões que faziam vários litros por quilômetro. E era possível viajar-se de trem a longas distâncias. Uma delícia, por sinal. Apesar de algo decadentes os trens contavam com vagão restaurante, além de quê, garçons transitavam pelos vagões oferecendo alimentos e bebidas. Para mim era especialmente divertido sentar num vagão mais à rabeira para poder ver pela janela o resto da composição serpenteando por entre os morros que ladeavam a Sorocabana.
Para quem gostava de futebol era a fase de ouro em que ganhamos o tri mundial e nossos craques jogavam todos aqui. Tubo bem que não podíamos ver as partidas pela TV, mas era muito mais emocionante poder ouvi-las pelo radinho a pilha.
Cada uma destas características setentistas daria um livro, mas espero poder ter aguçado com esse pouco tanto a saudade dos mais velhos quanto a curiosidade dos mais novos.
Também não sei se conseguiria viver num mundo sem PC, internet, mp3, metrô, microondas, mas também tenho saudade da segurança, do mundo sem Aids, do emprego pleno, do Pelé, e da crença idiota de que a felicidade era uma coisa possível.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

?

domingo, 9 de agosto de 2009

Outro fragmento

Era uma manhã mais fria do que seria o esperável para aquele agosto de 1992. Sentado na escadaria da igreja, ele tragava um gole da cachaça tomada ao vizinho que com ele dividira aquele leito improvisado com caixas de papelão. O mal cheiro dele e do amigo já há muito deixara de incomodá-lo, mas sabia que incomodaria as pessoas que viessem acudir à missa matinal; portanto, pôs-se em movimento dirigindo-se a um assento na praça em frente, com o quê ganhou algo que pareceu-lhe um olhar de reprovação do senhor que vendia café quentinho e bolo nas manhãs em que havia ofício naquela igreja.
A praça ainda guardava um amontoado de lixo deixado por uma moçada alegre e barulhenta que na véspera fizera ali algo como uma festa em que pediam a renúncia do presidente da república. Ele ria por dentro de si; achava graça da ingenuidade daquelas crianças ao mesmo tempo em que lhes devotava imenso carinho. Não se pode dizer que recordasse de si próprio duas décadas antes. Difícil crer que lhe restasse algo parecido com memória. Talvez fosse melhor chamar de pesadelos as imagens que lhe acorriam diuturnamente, mês após mês, ano após ano.
Fora casado e tivera uma filha que agora contaria vinte anos. Havia muito que não tinha notícia dela ou da ex-esposa.
Com essa ele conversara pela primeira vez numa manifestação estudantil contra o AI 5. Lembrava-se que teria sido no começo de 69, ela do curso de jornalismo, ele de engenharia. Já se haviam cruzado algumas vezes pelos corredores da universidade, sempre com uma significativa troca de olhares. Ela não era exatamente o padrão de mulher com que ele sonhava, mas tinha uns olhos azuis tão brilhantes que produziam nele um encantamento incomum.
Depois daquele dia, encontraram-se muitas vezes. Em princípio nas reuniões do diretório acadêmico; depois, mais reservadamente em casa de um dos líderes dos estudantes. Traçavam ali pequenas estratégias de luta contra o regime, apesar das notícias de desaparecimento de colegas do movimento. Ele e a amada - que agora já namoravam - foram assumindo papéis de destaque naquela organização. A ponto de certo dia, ao verem tipos estranhos dentro de um carro preto, parado próximo à casa, resolveram fugir pelo telhado e daí ao quintal vizinho. Curioso é que ela era filha de um severo capitão do exército.
Passaram a reunir-se em outro local, mais periférico. Agora já falavam em assaltos a banco que lhes pudessem financiar as atividades.
No entanto, quando aquele casal viu o nome e foto de ambos em cartazes distribuídos pela cidade, acharam que seria melhor fugir para o um lugar remoto. Escolheram uma pequena cidade de Mato Grosso, onde ele tinha uns parentes. Mais importante, preocupavam-se pela criança que viria. A jovem estava grávida.

Viveram assim escondidos por cerca de 8 anos até que o regime decidiu pelo retorno às instituições e anistia aos opositores que tivessem participado de atividade subversiva. Foram tempos difíceis. Ele tinha dificuldade em conseguir e se fixar em algum emprego. Ela é que mantinha o sustento dos três costurando roupas sob encomenda. Não que ele fosse vagabundo, mas nitidamente tinha dificuldades tanto de se relacionar com pessoas como de seguir ordens. Com o tempo as dicussões em família foram se tornando insuportáveis. Ela, embora o amasse muito, não suportava que ele insistentemente recusasse ajuda e ofertas de pessoas que o queriam bem. Quando voltaram para São Paulo, em 84, logo se separaram.

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Uma rajada de vento trouxe até próximo dele uma folha de jornal. Nela uma grande foto de primeira página ilustrava um comício gigante do dia anterior. Em destaque uma linda menina de rosto pintado em verde e amarelo e cabelos cacheados onde se prendia uma faixa com a inscrição "IMPEACHMENT JÁ".
Verdade que já caíam alguns pingos de chuva, mas a umidade sob os olhos denunciariam um possível choro. Saiu caminhando em busca de um local protegido, que encontrou sob a marquise de uma loja que estava fechada. Ele nem se dera conta de que era domingo. O segundo daquele mês.

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Pra você, Vã. Perdoe-me a fraqueza do texto. Que valha mais o esforço em tê-lo escrito. Definitivamente, ficção não é o meu planalto, já que praias não as temos por estas bandas de Piratininga. Com esse texto também espero encerrar o ciclo "anos de chumbo" e retornar a temas mais palatáveis.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

What a wonderful world

Escrevi no último texto sobre um assunto que significou muito para mim e para muitos amigos. Mas a grande pergunta é: o que sobrou de tudo aquilo? Globalização, crise mundial, mercado, aquecimento global, terrorismo, novas ameaças nucleares, países emergentes, religiões; dificilmente a pauta de algum noticiário não versará sobre pelo menos um destes itens ou suas derivações. E qual a importância de se estar informado sobre tais coisas?

Informação é poder; seria a resposta pronta mais óbvia. Mas como toda resposta pronta, não é completa. Muito se fala que as novas ferramentas tecnológicas como a Internet provocou uma avalanche de informações e que não necessariamente as pessoas estão melhor informadas por conta disso. Pode ser difícil separar o que realmente importa e ainda ter senso crítico para se entender informação manipulada, omissões propositais, jogo político e até mesmo boa intenção equivocada.

Penso eu, contudo, que o excesso de informação é melhor do que a falta. Lembro que no meu tempo de ensino básico, entre 72 e 79, havia uma matéria chamada Educação Moral e Cívica, onde nos ensinavam os "valores" da República, como a Bandeira, o Brasão, o Hino Nacional, enquanto pessoas eram mortas simplesmente porque desejavam a liberdade de escolha. E nós crianças e jovenzinhos não fazíamos a menor ideia do que acontecia. O máximo que nos permitiam eram cartazes com várias fotos de "terroristas" estampadas nas paredes de prédios públicos. No mais, era o Amaral Neto e o Jornal Nacional mostrando as grandes obras, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra, Itaipu e outros orgulhos dos militares. Era a época do "Brasil, ame-o ou deixe-o", como víamos na TV (em preto e branco, por sinal).

Com a abertura política - lenta e gradual, como se dizia na época - começamos a ter um pouco mais da verdade.

Indignação, revolta, ódio por aquela gente verde-oliva e seus patrões capitalistas, foram os meus melhores sentimentos diante daquelas verdades. Sentimentos mobilizadores; e aí está uma grande diferença para as gerações atuais e o "excesso" de informação: não há esse grande salto entre a treva e a luz que permita o aparecimento de sentimentos como aqueles. Banalização? Talvez. Perigo de apatia e alienação? Não sei. Há sinais preocupantes, sem dúvida. Parece que o valor da vida diminuiu muito. Coisa não natural do ser humano. Qualquer indivíduo quer viver; por muito tempo e com o máximo de felicidade. O que perdeu valor, acho, foi a vida do "outro'. Existe até uma palavra bonitinha para definir este "outro": alteridade. Fui buscar num dos mentores de minha militância, Frei Beto, uma definição para esta palavra:

"É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem" (http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=7063).

Emblemático este outro na cabeça das pessoas no mundo atual. Mais do que a compreensão intelectual, faz-se urgente sua compreensão sentimental. Falo de algo muito maior do que a mobilização conseguida com campanhas do tipo "Criança Esperança", "Teleton" e outras congêneres. Este outro é aquele a quem Jesus disse que deveríamos amar tanto quanto a nós mesmos. Cabe aqui também relembrar ou até mesmo esclarecer o significado de compaixão. E aqui vão as palavras de um outro grande pensador cristão, Leonardo Boff:

"Muitos estranharam que tivesse escrito que "sem compaixão (no sentido budista) não se combate a fome". Por que "no sentido budista"? Sim, porque compaixão, no sentido comum, possui uma conotação despectiva: é ter somente peninha, sentimento que rebaixa o outro, pois nele vê apenas a fome de pão e não também a fome de beleza. Poderíamos entender a com-paixão no sentido do cristianismo originário, sentido altamente positivo, que é ter miseri-cór-dia, vale dizer, um coração (cor) capaz de sentir os míseros e sair de si para socorrê-los. Atitude que a própria palavra com-paixão sugere: ter paixão com o outro, sofrer com ele, alegrar-se com ele, andar o caminho com ele. Mas essa acepção não vingou. Predominou aquela moralista e menor de quem olha de cima para baixo e descarrega uma esmola na mão do sofredor (http://www.leonardoboff.com)."

Embora ache complexo incutir essa atitude compassional no seio da sociedade, não sou pessimista. É bem verdade que a publicidade comercial quase que exclusivamente promove o individualismo, a valorização do “eu” acima de tudo. Afinal de contas, é “eu” quem tem o cartão de crédito. Também não me parece que a maioria das famílias promova tais valores internamente. Citei também dois conhecidos nomes cristãos, fomentadores desses ideais de sociedade, o que não quer dizer que as igrejas sejam promotoras dessa valorização do outro. Pelo contrário; muitas denominações ditas cristãs se fazem notar pelo oferecimento de bens ao indivíduo: curas milagrosas e promessas de melhoria de vida que não sendo coisas ruins, afastam-se da mensagem cristã integral.

O que me faz otimista é a crença no próprio ser humano, cuja bondade nasce feito a flor no pântano. Não em todos; não em muitos. Mas um pouco na maioria e muito em alguns poucos. Suficiente, penso, para não nos destruirmos e nem ao planeta. Cria-se uma consciência ecológica que no fundo será exatamente essa compaixão levada a extremo.

Desenvolvimento sustentado e inclusão social são palavras de ordem. Fim de preconceitos, valorização e aceitação das diferenças já não parecem delírios de idealistas. Bem verdade que nações ainda padecem sob ditaduras, morte e opressão são produzidas em nome de deuses e fome e doenças ainda são desafios gigantes. Mas penso que caminhamos, ainda que lentamente, no sentido de se resolverem estas pendências. Sentido para o qual acredito e desejo que se dirija o tal poder da informação.