sábado, 25 de outubro de 2008

The Champ

Dá medo, eu sei. Mais ainda em mês de Halloween (como fomos importar folclore ianque?). Eu não tenho medo de você, apesar da tua brabeza. Mas tenho um certo pavor de mim mesmo. Pavor de não conseguir reagir à altura dos meus sonhos.
Você me conhece pouco, é verdade, embora esse pouco possa ser o que tenho de melhor. Você por sua vez transparece capacidade de luta e reação diante de adversidades. Não tenho dúvida de que é alguém que faz questão de ter as rédeas da vida nas mãos; que não perde tempo com o que não funciona.
Eu, neste momento, tenho que confessar, sou todo o oposto. Caí de costas na lona, o juiz já perdeu a conta e eu não dou sinal de que vou me levantar, ainda que nitidamente vivo. Não há muita gente mais no ginásio e até o adversário já foi embora com seu cinturão reluzente, carregado nos ombros daqueles que são amigos dos gloriosos.
Não peço mãos que me ajudem a levantar, tenho ainda meu orgulho. Quero apenas um par de olhos. Como estes teus, que parecem mais emitir luz do que receber. Quero o calorzinho balsâmico desta luz que me diminuam as dores. O resto eu conseguirei por mim mesmo. Tenho que conseguir.


Não tem tanto assim a ver (espero), mas quem vê chora. Ah se chora!


quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Aurora do Evangelho

"A mulher sentou-se junto dele, passou-lhe suavemente a mão pela cabeça, tocou-lhe na boca com a ponta dos dedos, Se queres agradecer-me, fica este dia comigo, Não posso, Porquê, Não tenho com que pagar-te, Grande novidade, Não te rias de mim, Talvez não creias, mas olha que mais facilmente me riria de um homem com a bolsa cheia, Não é só a questão do dinheiro, Que é, então. Jesus calou-se e voltou a cara para o lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação. Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te. Maria levantou-se, foi trancar a porta do pátio, mas primeiro dependurou qualquer coisa do lado de fora, sinal que seria de entendimento, para os clientes que viessem por ela, de que se havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar, Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio-dia, sopra no meu jardim para que se espalhem os seus aromas, entre o meu amado no seu jardim e coma dos seus deliciosos frutos. Depois, juntos, Jesus amparado, como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de Magdala que o curou e o vai receber na sua cama, entraram em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco e limpo. A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo lançado por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam
estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornouse perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios,que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas,não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito. Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse das chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido doutro encontro, no deserto, com Deus."

Extraído de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" de José Saramago

Só espero que o próprio Pai do Homem não me venha as orelhas puxar-me!

domingo, 12 de outubro de 2008

Agridoce

No post anterior citei o site http://www.agridoce.com.br e acabei criando um mal-estar federal por não tê-lo recomendado. Acontece que eu pensava estar fazendo uma visita anônima ao "Agridoce". Não conhecia o pessoal de lá. Li alguns posts e apenas este do Kris Arruda achei interessante. Não esperava que eles rastreassem os visitantes. Aí acabei ficando numa saia justa pela contravisita do autor citado.
Na verdade, acreditem, sabia já não ser totalmente justa a não recomendação, até porque além dos posts interessantes do Kris, há uma proposta grafica que também chama a atenção. Mas aí ficaria por conta de quem viesse a ler, se interessar e avaliar por si mesmo.
O que fica pra mim e a certeza de que anonimato é algo impensável na internet.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tá russo!


Só acontece comigo! Há algum tempo, fui contatado por uma jovem russa através de e-mail dizendo que tinha gostado do meu perfil e queria me conhecer melhor. Belíssima jovem. Aliás, será que tem mulheres feias na Rússia?

Bem, 28 anos, tão atraente, querendo conhecer um homem mais velho e sem nenhuma outra referência e de um país tão distante... achei de investigar. Pelo IP do e-mail vi que era da Rússia, de fato. Mas nesse processo de investigar encontrei alguns sites especializados em desmascarar pessoas que fazem contatos com homens solteiros mundo afora se fazendo passar por apaixonadas. Infelizmente, quase sempre russas. Fazem o infeliz acreditar e num dado momento lhe arrancam dinheiro fazendo-o enviá-lo a título de compra de passagem de avião, que seria usada para ir ao encontro do amado.

Não enontrei qualquer referência ao nome que me foi passado, Anna Burlak, nem às fotos que ela enviou-me. Mas fiquei de orelha em pé. Continuaram os e-mails, num inglês horrível, diga-se. E eu até respondi pra ver no que daria. Continuando a investigar descobri que o IP era da região de onde partiam a quase totalidade das fraudes denunciadas em vários sites.
Mesmo depois de responder a mais um dos e-mails apaixonados desmacarando a fraudadora ou fraudador, ainda continuaram a chegar e-mails. Sempre muito românticos e acompanhados de fotos.
Acabei ficando mal com essa história. Passei uma semana bem pra baixo. Pôxa! Já não bastavam as frustrações caseiras?rs

Em tempo: as fotos enviadas pelos fraudadores, ditos scammers em inglês, são roubadas de mulheres inocentes que provavelmente jamais saberão que tiveram suas imagens usadas para tais fins.

sábado, 13 de setembro de 2008

Praia tão deserta

Ninguém viu a garrafa

Que chegou à areia
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008



Quase Primavera

Aqui no canto da sala

O frio ainda impera
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sábado, 30 de agosto de 2008

O homem do mundo e o homem de si mesmo

De repente me deu saudade de não ser tão intimista. É que minhas perdas pessoais associadas a escândalos envolvendo o meu partido político acabaram por minar meus interesses pelas coisas do mundo. O problema é que assim o mundo também perdeu o interesse por mim. Ou quase. Tenho merecido a atenção de gente muito especial. E uma forma de eu agradecer é relembrar um pouco uma certa sede de universo.


A imagem que me vem à cabeça para descrever a história presente é a de uma grande torneira jorrando. Só pra comparar, a Idade Média seria uma torneira pequena com apenas um fiozinho de água. Hoje tudo acontece ao mesmo tempo. As interrelações dos fatos fogem ao computável e grandes pensadores se transformam assim em meros especuladores. Ideologias e filosofias morreram. Foram substituídas por tecnologias. Como contraponto sobraram as religiões; ou não exatamente um contraponto, uma vez que se utilizam de muitas destas tecnologias para fazer proselitismo.

Alguns podem entender que o fim de formas de pensamento signifique que tudo o que se poderia pensar já foi pensado. Estaríamos vivendo uma época onde meramente se aplicam as idéias vencedoras. Outros, com os quais me alinho, podem imaginar que estamos apenas no começo de uma revolução gigantesca que alterará tudo o que entendemos por humanidade.

Acredito como bastante provável que as futuras gerações, talvez ainda dentro deste século, venham a receber enxertos tecnológicos. A Ficção Científica trouxe-nos a idéia de andróides; máquinas com partes humanas. O que prevejo, no entanto, é radicalmente diferente: humanos absorvendo máquinas. E a tal ponto que não será válida mais a distinção. Outra idéia que perpassa a Ficção Científica é a da inteligência artificial. Mas o que imagino será uma "humanização dos artifícios": cérebros humanos controlando corpos absolutamente artificiais.

Este é um cenário bem diferente do de "Matrix". Não haverá necessidade da guerra entre humanos e máquinas, porque ambos serão um só.

A imortalidade, salvo imensos desastres naturais, será finalmente alcançada. Todos os "humáquinas" estarão interligados globalmente. No entanto, a individualidade poderá ser preservada, por conta da sobrevivência do cérebro humano e conseqüentemente de seu instinto de autopreservação. Também por conta dos instintos muito provavelmente se perpetuarão as religiões e talvez até o sexo, a par da falta de "órgãos" reais. Ou talvez se opte pela praticidade do sexo puramente virtual. Isso, aliás, creio que se dará bem antes até da implantação da humaquinidade. E aí Matrix acerta: tudo o que percebemos do mundo são em última instância impulsos elétricos; criar as interfaces e os softwares será o de menos.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

... a única coisa que torna o vazio suportável são os outros.

É uma frase do filme "Contato". Tirando-a do contexto universal em que lá aparece, para mim ela ganha um sentido especial porquanto eu tenha vivido "isolado" boa parte da vida. Nunca fui de alimentar amizades. Não porque não gostasse de gente, mas por uma imensa timidez. Hoje há a facilidade que estes meios eletrônicos permitem, mas ainda assim, comparado a quase todo mundo, ainda sou o tímido de sempre.
Mas não foi para falar de amizade que lembrei da frase. Até porque já passei da idade de mudar o meu jeito e buscar consolo existencial em ombros amigos, embora respeite muito os poucos que tenho - mais por iniciativa deles do que minhas, diga-se.
Meu ideal de vida sempre foi o afetivo, o vínculo a dois. Nesse sentido a frase deveria terminar com "...o outro" ou então entender-se "os outros" como um coletivo complementar de "os uns" solitários (sou complicado às vezes, urgh!).
Como explicar, então, eu estar só depois de ter encontrado alguém que me amou muito além do razoável, do imaginável? Qualquer tentativa de explicação será sempre imprecisa. Até porque não conheço todos os lances desta estória. Nem quero mais sabê-los. Já admiti minha total incapacidade, ao longo de doze anos, de enxergar o tesouro que a vida me dera. O que jamais vou conseguir aceitar é o momento escolhido para a cisão. Em qualquer outro, mesmo com o coração despedaçado (não em sentido literal), mesmo tendo vivido esse tempo todo só em função do sentimento dela, eu teria sido o primeiro a aplaudir e apoiar.
Mas também não é desse meu enorme fracasso que quero falar aqui. É que o que entendo da vida hoje nasceu desse episódio. E a frase título tem também outro significado: antes eu pensava uma relação a partir do que meus neurotransmissores indicavam (paixões). Hoje sei que eles nos enganam (enganaram a mim por muito tempo). Não estou levantando bandeira contra tais sentimentos. Ao contrário, acho que são o que de melhor se pode levar desta vida. E nem acho possível ensinar-se alguém a partir de nossa própria experiência, ainda que ao expormos tais vivências sempre tenhamos esse intuito didático. O que quero é justificar o que disse no post anterior sobre a minha preferência pelo duradouro, apesar do meu fracasso.
O que descobri é que é possível investir-se em alguém que mereça mesmo que esse alguém não nos leve às alturas num primeiro momento.
E ao contrário, é preciso muito cuidado com as paixões fulminantes. Não vejo como duas pessoas possam vir a formar um casal de qualidade se não tiverem código de valores semelhantes e intelectualidade compatível, tudo isso direcionado, é claro, para as responsabilidades giantescas da vida a dois.
Cansei por hoje. Continuo depois incluindo outros três fatores complicadores das relações: sexo, idiossincrasias e dinheiro (ou falta dele).

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Primeiro Haikai

Enfim um dia sem chuva
Na metrópole da garoa
Os seus olhos... verão