Quem vê melhor a beleza: os olhos ou a emoção?
Há pouco assistia ao desfile da Leandro de Itaquera, escola de samba paulistana sem muitos recursos. Portanto não esperava muita coisa, sendo já pouco o que a TV consegue capturar de um espetáculo do porte de um dos principais carnavais do Brasil.
O enredo é uma homenagem às "Periferias" (as Itaqueras brasileiras) e à sua grande divulgadora, Regina Casé, que participava muito feliz do desfile.
Não sou torcedor da escola, mas logo que os cantores fizeram a aclamação inicial senti os olhos ficarem mais úmidos. Foi algo na expressão emocionada de um deles que me contagiou.
A escola foi passando e num dado momento mostra-se uma referência a Canudos. Até aí, quando do centenário da epopéia baiana algumas escolas fizeram enredos apenas sobre esse tema.
No entanto, o que me emocionou não foi a referência teatralizada a Canudos, mas o comentário que o narrador do desfile, o jornalista Chico Pinheiro, fez do episódio ocorrido no sertão baiano ao final do século 19.
Falava ele da chacina onde foram mortos mais de vinte mil pessoas (mulheres e crianças inclusive) pelas tropas federais. Tudo por que ali se alimentava uma proposta de vivência comunitária. Todos trabalhando por todos. Todos vivendo por todos. E Chico lembrou do quanto é incomodo para as elites uma experiência assim.
Lembrei-me de um certo Alvaro, que embora falasse a um público muitíssimo menor que o do Chico e o do Conselheiro, carregou consigo por algum tempo o sonho gigante de ver o mundo transformar-se numa grande comunidade. A inspiração: o maior de todos os sonhadores. Um homem que convenceu multidões que com alguns poucos pães e peixes seria possível dar de comer a todo mundo, bastaria o espírito de comunhão, o maior de todos os milagres.
Chorei por causa do Chico, comunista disfarçado de global. Chorei pelo Conselheiro e seu sertão. Chorei pela companheira daqueles dias, que hoje não mais me acompanha.
Ps aos incautos: vide "Os Sertões" do grande Euclides da Cunha