quinta-feira, 10 de setembro de 2015



Para P.


Outro dia fui a pé para o trabalho. Coisa de 10 km. Como entro às 14 h, caminhei sob o sol mais intenso, ainda que o do inverno metropolitano. Não foi ruim, ainda que a paisagem não ajude. O que gosto nestes passeios, apesar de certa dor nas costas a denunciar a idade, é poder pensar muito nas principais questões que me afligem sem que isso me pese como acontece em todos os outros muitos momentos de sedentarismo. Pobres de nós, escravos das distâncias urbanas, que entupimos nossas artérias de gordura e nossas almas de lembranças doídas. Atentem para o acento no í, embora doidas também sejam. O trajeto daquele dia incluiu a linha férrea que liga o ABC à capital e além. Teve as fábricas que dão a essa região pujança econômica e, lamentavelmente, muitos veículos automotores com suas fumaças e seus barulhos a tornar a caminhada bem menos agradável. Pessoas caminheiras é que se contaram nos dedos.
Como diz a Física, concordando com a impressão psicológica, caminhamos no tempo tanto quanto no espaço.
Naquela andança em que os passos representavam os dias desde que te conheci, refletia sobre como gastamos nossa energia com ilusões. Eu comia um chocolate, mas repunha apenas a que os quilômetros roubavam. Ou não; embora com nós homens esse placebo antidepressivo possa não ser tão eficiente.
Ao passar pelo viaduto da Capuava lembrei do tanto que já quis andar assim de mãos dadas contigo. Mais à frente até tentei me conformar com o fato de que houve uma caminhada real, ainda que sem as mãos unidas. Pensei também sobre o porquê de necessitarmos do contato real se toda sensação não passa de sequência de impulsos elétricos. E sobre o porquê dos inúmeros contatos virtuais em nada substituírem trocas de calores corpóreos ou mesmo fluidos. Existiria alguma forma equivalente de beijo telemático, para além dos repetitivos e frágeis emojis? Não, você há de concordar. Por tudo isso me conformava com o fim das conversas. A dureza do chão, amplificada a cada passo, me impregnava de realidade e me fazia querê-la mais que tudo, ainda que solitária como aquela simples ida ao trabalho. Pensei que a vida poderia sem bem mais completa. Não só para mim. Você nunca me contou de fazer longas caminhadas reais; conheço contudo muitos pormenores de seu trajeto pelo reino de Chronos. Muito dele igualmente só. Havia intensidade naquela ligação, ora por streaming de dados nas hipervias, ora por pontes eletromagnéticas. Ah, mas o desejo do toque. Nisso não havia co-municação. Então a ilusão, essa consumidora gulosa de energia vital. Desde lá a aceitação da vida sem toque: nos bancos de ônibus, nos vagões do metrô, nos pontos ou plataformas de espera.
Minha querida P., eu te amei. E digo que não sei mais o significado exato desse verbo. Sei que exprime algo intenso, dominante, ao mesmo tempo doloroso e prazeroso; algo que nos amplia para muito além de nós mesmos. Um não sei quê que permite qual um buraco de minhoca, a transição por dimensões inimagináveis.
Hoje não caminhei. Preferi escrever, depois de meses, depois de quilômetros. Do real para o real. Espiral ou círculo, não sei, a paisagem é sempre muito igual. As lembranças e os sentimentos que se vão indo: bagagem pesada demais para carregar por uma eternidade ou por uma estrada da qual só se vê, no limite, uma paradoxal aproximação assintótica de linhas paralelas.

A