quarta-feira, 12 de agosto de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
Outro fragmento
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
What a wonderful world
Escrevi no último texto sobre um assunto que significou muito para mim e para muitos amigos. Mas a grande pergunta é: o que sobrou de tudo aquilo? Globalização, crise mundial, mercado, aquecimento global, terrorismo, novas ameaças nucleares, países emergentes, religiões; dificilmente a pauta de algum noticiário não versará sobre pelo menos um destes itens ou suas derivações. E qual a importância de se estar informado sobre tais coisas?
Informação é poder; seria a resposta pronta mais óbvia. Mas como toda resposta pronta, não é completa. Muito se fala que as novas ferramentas tecnológicas como a Internet provocou uma avalanche de informações e que não necessariamente as pessoas estão melhor informadas por conta disso. Pode ser difícil separar o que realmente importa e ainda ter senso crítico para se entender informação manipulada, omissões propositais, jogo político e até mesmo boa intenção equivocada.
Penso eu, contudo, que o excesso de informação é melhor do que a falta. Lembro que no meu tempo de ensino básico, entre 72 e 79, havia uma matéria chamada Educação Moral e Cívica, onde nos ensinavam os "valores" da República, como a Bandeira, o Brasão, o Hino Nacional, enquanto pessoas eram mortas simplesmente porque desejavam a liberdade de escolha. E nós crianças e jovenzinhos não fazíamos a menor ideia do que acontecia. O máximo que nos permitiam eram cartazes com várias fotos de "terroristas" estampadas nas paredes de prédios públicos. No mais, era o Amaral Neto e o Jornal Nacional mostrando as grandes obras, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra, Itaipu e outros orgulhos dos militares. Era a época do "Brasil, ame-o ou deixe-o", como víamos na TV (em preto e branco, por sinal).
Com a abertura política - lenta e gradual, como se dizia na época - começamos a ter um pouco mais da verdade.
Indignação, revolta, ódio por aquela gente verde-oliva e seus patrões capitalistas, foram os meus melhores sentimentos diante daquelas verdades. Sentimentos mobilizadores; e aí está uma grande diferença para as gerações atuais e o "excesso" de informação: não há esse grande salto entre a treva e a luz que permita o aparecimento de sentimentos como aqueles. Banalização? Talvez. Perigo de apatia e alienação? Não sei. Há sinais preocupantes, sem dúvida. Parece que o valor da vida diminuiu muito. Coisa não natural do ser humano. Qualquer indivíduo quer viver; por muito tempo e com o máximo de felicidade. O que perdeu valor, acho, foi a vida do "outro'. Existe até uma palavra bonitinha para definir este "outro": alteridade. Fui buscar num dos mentores de minha militância, Frei Beto, uma definição para esta palavra:
"É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem" (http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=7063).
Emblemático este outro na cabeça das pessoas no mundo atual. Mais do que a compreensão intelectual, faz-se urgente sua compreensão sentimental. Falo de algo muito maior do que a mobilização conseguida com campanhas do tipo "Criança Esperança", "Teleton" e outras congêneres. Este outro é aquele a quem Jesus disse que deveríamos amar tanto quanto a nós mesmos. Cabe aqui também relembrar ou até mesmo esclarecer o significado de compaixão. E aqui vão as palavras de um outro grande pensador cristão, Leonardo Boff:
"Muitos estranharam que tivesse escrito que "sem compaixão (no sentido budista) não se combate a fome". Por que "no sentido budista"? Sim, porque compaixão, no sentido comum, possui uma conotação despectiva: é ter somente peninha, sentimento que rebaixa o outro, pois nele vê apenas a fome de pão e não também a fome de beleza. Poderíamos entender a com-paixão no sentido do cristianismo originário, sentido altamente positivo, que é ter miseri-cór-dia, vale dizer, um coração (cor) capaz de sentir os míseros e sair de si para socorrê-los. Atitude que a própria palavra com-paixão sugere: ter paixão com o outro, sofrer com ele, alegrar-se com ele, andar o caminho com ele. Mas essa acepção não vingou. Predominou aquela moralista e menor de quem olha de cima para baixo e descarrega uma esmola na mão do sofredor (http://www.leonardoboff.com)."
Embora ache complexo incutir essa atitude compassional no seio da sociedade, não sou pessimista. É bem verdade que a publicidade comercial quase que exclusivamente promove o individualismo, a valorização do “eu” acima de tudo. Afinal de contas, é “eu” quem tem o cartão de crédito. Também não me parece que a maioria das famílias promova tais valores internamente. Citei também dois conhecidos nomes cristãos, fomentadores desses ideais de sociedade, o que não quer dizer que as igrejas sejam promotoras dessa valorização do outro. Pelo contrário; muitas denominações ditas cristãs se fazem notar pelo oferecimento de bens ao indivíduo: curas milagrosas e promessas de melhoria de vida que não sendo coisas ruins, afastam-se da mensagem cristã integral.
O que me faz otimista é a crença no próprio ser humano, cuja bondade nasce feito a flor no pântano. Não em todos; não em muitos. Mas um pouco na maioria e muito em alguns poucos. Suficiente, penso, para não nos destruirmos e nem ao planeta. Cria-se uma consciência ecológica que no fundo será exatamente essa compaixão levada a extremo.
Desenvolvimento sustentado e inclusão social são palavras de ordem. Fim de preconceitos, valorização e aceitação das diferenças já não parecem delírios de idealistas. Bem verdade que nações ainda padecem sob ditaduras, morte e opressão são produzidas em nome de deuses e fome e doenças ainda são desafios gigantes. Mas penso que caminhamos, ainda que lentamente, no sentido de se resolverem estas pendências. Sentido para o qual acredito e desejo que se dirija o tal poder da informação.