quarta-feira, 12 de agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

Outro fragmento

Era uma manhã mais fria do que seria o esperável para aquele agosto de 1992. Sentado na escadaria da igreja, ele tragava um gole da cachaça tomada ao vizinho que com ele dividira aquele leito improvisado com caixas de papelão. O mal cheiro dele e do amigo já há muito deixara de incomodá-lo, mas sabia que incomodaria as pessoas que viessem acudir à missa matinal; portanto, pôs-se em movimento dirigindo-se a um assento na praça em frente, com o quê ganhou algo que pareceu-lhe um olhar de reprovação do senhor que vendia café quentinho e bolo nas manhãs em que havia ofício naquela igreja.
A praça ainda guardava um amontoado de lixo deixado por uma moçada alegre e barulhenta que na véspera fizera ali algo como uma festa em que pediam a renúncia do presidente da república. Ele ria por dentro de si; achava graça da ingenuidade daquelas crianças ao mesmo tempo em que lhes devotava imenso carinho. Não se pode dizer que recordasse de si próprio duas décadas antes. Difícil crer que lhe restasse algo parecido com memória. Talvez fosse melhor chamar de pesadelos as imagens que lhe acorriam diuturnamente, mês após mês, ano após ano.
Fora casado e tivera uma filha que agora contaria vinte anos. Havia muito que não tinha notícia dela ou da ex-esposa.
Com essa ele conversara pela primeira vez numa manifestação estudantil contra o AI 5. Lembrava-se que teria sido no começo de 69, ela do curso de jornalismo, ele de engenharia. Já se haviam cruzado algumas vezes pelos corredores da universidade, sempre com uma significativa troca de olhares. Ela não era exatamente o padrão de mulher com que ele sonhava, mas tinha uns olhos azuis tão brilhantes que produziam nele um encantamento incomum.
Depois daquele dia, encontraram-se muitas vezes. Em princípio nas reuniões do diretório acadêmico; depois, mais reservadamente em casa de um dos líderes dos estudantes. Traçavam ali pequenas estratégias de luta contra o regime, apesar das notícias de desaparecimento de colegas do movimento. Ele e a amada - que agora já namoravam - foram assumindo papéis de destaque naquela organização. A ponto de certo dia, ao verem tipos estranhos dentro de um carro preto, parado próximo à casa, resolveram fugir pelo telhado e daí ao quintal vizinho. Curioso é que ela era filha de um severo capitão do exército.
Passaram a reunir-se em outro local, mais periférico. Agora já falavam em assaltos a banco que lhes pudessem financiar as atividades.
No entanto, quando aquele casal viu o nome e foto de ambos em cartazes distribuídos pela cidade, acharam que seria melhor fugir para o um lugar remoto. Escolheram uma pequena cidade de Mato Grosso, onde ele tinha uns parentes. Mais importante, preocupavam-se pela criança que viria. A jovem estava grávida.

Viveram assim escondidos por cerca de 8 anos até que o regime decidiu pelo retorno às instituições e anistia aos opositores que tivessem participado de atividade subversiva. Foram tempos difíceis. Ele tinha dificuldade em conseguir e se fixar em algum emprego. Ela é que mantinha o sustento dos três costurando roupas sob encomenda. Não que ele fosse vagabundo, mas nitidamente tinha dificuldades tanto de se relacionar com pessoas como de seguir ordens. Com o tempo as dicussões em família foram se tornando insuportáveis. Ela, embora o amasse muito, não suportava que ele insistentemente recusasse ajuda e ofertas de pessoas que o queriam bem. Quando voltaram para São Paulo, em 84, logo se separaram.

*

Uma rajada de vento trouxe até próximo dele uma folha de jornal. Nela uma grande foto de primeira página ilustrava um comício gigante do dia anterior. Em destaque uma linda menina de rosto pintado em verde e amarelo e cabelos cacheados onde se prendia uma faixa com a inscrição "IMPEACHMENT JÁ".
Verdade que já caíam alguns pingos de chuva, mas a umidade sob os olhos denunciariam um possível choro. Saiu caminhando em busca de um local protegido, que encontrou sob a marquise de uma loja que estava fechada. Ele nem se dera conta de que era domingo. O segundo daquele mês.

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Pra você, Vã. Perdoe-me a fraqueza do texto. Que valha mais o esforço em tê-lo escrito. Definitivamente, ficção não é o meu planalto, já que praias não as temos por estas bandas de Piratininga. Com esse texto também espero encerrar o ciclo "anos de chumbo" e retornar a temas mais palatáveis.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

What a wonderful world

Escrevi no último texto sobre um assunto que significou muito para mim e para muitos amigos. Mas a grande pergunta é: o que sobrou de tudo aquilo? Globalização, crise mundial, mercado, aquecimento global, terrorismo, novas ameaças nucleares, países emergentes, religiões; dificilmente a pauta de algum noticiário não versará sobre pelo menos um destes itens ou suas derivações. E qual a importância de se estar informado sobre tais coisas?

Informação é poder; seria a resposta pronta mais óbvia. Mas como toda resposta pronta, não é completa. Muito se fala que as novas ferramentas tecnológicas como a Internet provocou uma avalanche de informações e que não necessariamente as pessoas estão melhor informadas por conta disso. Pode ser difícil separar o que realmente importa e ainda ter senso crítico para se entender informação manipulada, omissões propositais, jogo político e até mesmo boa intenção equivocada.

Penso eu, contudo, que o excesso de informação é melhor do que a falta. Lembro que no meu tempo de ensino básico, entre 72 e 79, havia uma matéria chamada Educação Moral e Cívica, onde nos ensinavam os "valores" da República, como a Bandeira, o Brasão, o Hino Nacional, enquanto pessoas eram mortas simplesmente porque desejavam a liberdade de escolha. E nós crianças e jovenzinhos não fazíamos a menor ideia do que acontecia. O máximo que nos permitiam eram cartazes com várias fotos de "terroristas" estampadas nas paredes de prédios públicos. No mais, era o Amaral Neto e o Jornal Nacional mostrando as grandes obras, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra, Itaipu e outros orgulhos dos militares. Era a época do "Brasil, ame-o ou deixe-o", como víamos na TV (em preto e branco, por sinal).

Com a abertura política - lenta e gradual, como se dizia na época - começamos a ter um pouco mais da verdade.

Indignação, revolta, ódio por aquela gente verde-oliva e seus patrões capitalistas, foram os meus melhores sentimentos diante daquelas verdades. Sentimentos mobilizadores; e aí está uma grande diferença para as gerações atuais e o "excesso" de informação: não há esse grande salto entre a treva e a luz que permita o aparecimento de sentimentos como aqueles. Banalização? Talvez. Perigo de apatia e alienação? Não sei. Há sinais preocupantes, sem dúvida. Parece que o valor da vida diminuiu muito. Coisa não natural do ser humano. Qualquer indivíduo quer viver; por muito tempo e com o máximo de felicidade. O que perdeu valor, acho, foi a vida do "outro'. Existe até uma palavra bonitinha para definir este "outro": alteridade. Fui buscar num dos mentores de minha militância, Frei Beto, uma definição para esta palavra:

"É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem" (http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=7063).

Emblemático este outro na cabeça das pessoas no mundo atual. Mais do que a compreensão intelectual, faz-se urgente sua compreensão sentimental. Falo de algo muito maior do que a mobilização conseguida com campanhas do tipo "Criança Esperança", "Teleton" e outras congêneres. Este outro é aquele a quem Jesus disse que deveríamos amar tanto quanto a nós mesmos. Cabe aqui também relembrar ou até mesmo esclarecer o significado de compaixão. E aqui vão as palavras de um outro grande pensador cristão, Leonardo Boff:

"Muitos estranharam que tivesse escrito que "sem compaixão (no sentido budista) não se combate a fome". Por que "no sentido budista"? Sim, porque compaixão, no sentido comum, possui uma conotação despectiva: é ter somente peninha, sentimento que rebaixa o outro, pois nele vê apenas a fome de pão e não também a fome de beleza. Poderíamos entender a com-paixão no sentido do cristianismo originário, sentido altamente positivo, que é ter miseri-cór-dia, vale dizer, um coração (cor) capaz de sentir os míseros e sair de si para socorrê-los. Atitude que a própria palavra com-paixão sugere: ter paixão com o outro, sofrer com ele, alegrar-se com ele, andar o caminho com ele. Mas essa acepção não vingou. Predominou aquela moralista e menor de quem olha de cima para baixo e descarrega uma esmola na mão do sofredor (http://www.leonardoboff.com)."

Embora ache complexo incutir essa atitude compassional no seio da sociedade, não sou pessimista. É bem verdade que a publicidade comercial quase que exclusivamente promove o individualismo, a valorização do “eu” acima de tudo. Afinal de contas, é “eu” quem tem o cartão de crédito. Também não me parece que a maioria das famílias promova tais valores internamente. Citei também dois conhecidos nomes cristãos, fomentadores desses ideais de sociedade, o que não quer dizer que as igrejas sejam promotoras dessa valorização do outro. Pelo contrário; muitas denominações ditas cristãs se fazem notar pelo oferecimento de bens ao indivíduo: curas milagrosas e promessas de melhoria de vida que não sendo coisas ruins, afastam-se da mensagem cristã integral.

O que me faz otimista é a crença no próprio ser humano, cuja bondade nasce feito a flor no pântano. Não em todos; não em muitos. Mas um pouco na maioria e muito em alguns poucos. Suficiente, penso, para não nos destruirmos e nem ao planeta. Cria-se uma consciência ecológica que no fundo será exatamente essa compaixão levada a extremo.

Desenvolvimento sustentado e inclusão social são palavras de ordem. Fim de preconceitos, valorização e aceitação das diferenças já não parecem delírios de idealistas. Bem verdade que nações ainda padecem sob ditaduras, morte e opressão são produzidas em nome de deuses e fome e doenças ainda são desafios gigantes. Mas penso que caminhamos, ainda que lentamente, no sentido de se resolverem estas pendências. Sentido para o qual acredito e desejo que se dirija o tal poder da informação.