quinta-feira, 29 de abril de 2010

Refrão de um bolero

A peça não era boa. Fui só para vê-la, como todas as outras vezes. Secretamente, como sempre. Na última fila. Escondido. Como sempre. Mas ontem queria terminar diferente. Ia entregar-lhe flores. Rosas vermelhas; contraste perfeito com o azul dos olhos dela. Levei tanto tempo para decidir, criar coragem. Quanta dispneia, quanta taquicardia. E pernas bambas. Certa vez precisei andar uma hora na chuva para voltar ao normal.
Mas ontem não havia chuva. Quando terminou a peça, esperei um pouco, até que todos pudessem fazer seus cumprimentos. Ela estava linda, como sempre, com seu sorriso de dentes perfeitos. As luzes de efeito já se haviam apagado, mas eu a via sob um foco, tudo escuro a volta. Monólogo de pensamentos que eu imaginava. E a aplaudia, também em pensamentos. Até porque quase tudo o que eu pensava a incluía.
Mas ontem outras luzes se acenderam. Apareceram um homem e um menino. Eles foram até ela e a abraçaram. Depois o homem deu-lhe um longo beijo. Beijo de paixão. Aí ouvi o menino chamá-los pai e mãe.
Ontem não chovia. Saí às ruas escuras e atirei as rosas em alguma lixeira, não tenho certeza. Lembro de ter entrado em algum boteco de iluminação ruim e gentes caricatas. E pedi aguardente, na falta das outras águas.
Acordei tarde, querendo não ter acordado. Hoje a última fila terá um lugar vago.


Coração na mão como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser.
Um erro assim, tão vulgar, nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira ele consegue nos achar num bar
Com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro
E uma cara embriagada no espelho do banheiro
(Refrão de um bolero - Engenheiros do Hawaii)

domingo, 25 de abril de 2010

Coração exposto

Chega um tempo em que não faz mais diferença. Cria-se imunidade.
Parafraseando Salomão: tudo é ilusão e vento que passa.
De verdade tão somente os olhos vermelhos da mãe, cercada por paredes e luzes brancas.
Providencial é o que o universo tem de cíclico. Recria as ilusões para cada nova geração. E a existência se torna  assim palatável.