Mas ontem não havia chuva. Quando terminou a peça, esperei um pouco, até que todos pudessem fazer seus cumprimentos. Ela estava linda, como sempre, com seu sorriso de dentes perfeitos. As luzes de efeito já se haviam apagado, mas eu a via sob um foco, tudo escuro a volta. Monólogo de pensamentos que eu imaginava. E a aplaudia, também em pensamentos. Até porque quase tudo o que eu pensava a incluía.
Mas ontem outras luzes se acenderam. Apareceram um homem e um menino. Eles foram até ela e a abraçaram. Depois o homem deu-lhe um longo beijo. Beijo de paixão. Aí ouvi o menino chamá-los pai e mãe.
Ontem não chovia. Saí às ruas escuras e atirei as rosas em alguma lixeira, não tenho certeza. Lembro de ter entrado em algum boteco de iluminação ruim e gentes caricatas. E pedi aguardente, na falta das outras águas.
Acordei tarde, querendo não ter acordado. Hoje a última fila terá um lugar vago.
Coração na mão como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser.
Um erro assim, tão vulgar, nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira ele consegue nos achar num bar
Com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro
E uma cara embriagada no espelho do banheiro
(Refrão de um bolero - Engenheiros do Hawaii)
6 comentários :
Ca-ce-ta-da Alvaro! Parafraseando você, a liberdade temática te faz um bem enorme.
De todos que li, o teu foi o que mais me tocou. E não falo da boca pra fora.
Beijo. Bom início de maio.
As rosas jogadas na lixeira, uma paixão que arde no peito, a chuva que não cai. Nas mãos um pouco de alcool para suprir o veneno do amor que insiste em ficar!!
Perfeito, beijo
o azul dos olhos dela e o sorriso de dentes perfeitos. a peça não era boa é o melhor a se dizer.
bj.
Boa Álvaro...muito bom...intenso, denso e escuro! Gostei demais!!
[]s
Eu às vezes faço coisas só para vê-lo, como descreve neste texto. E ao contrário dessa história ele é totalmente livre e desimpedido. rs
O amor pede coragem e coragem é o que não tenho.
Profundidade em sua analogia.
Um abraço.
A cadeira manteve-se vazia por pouco tempo. Tenho certeza. O amor é traiçoeiro e cria falsas esperanças.
Aguardo a continuação, caso haja, ou novos textos. Não nos deixe com a cruel sensação do "quero mais", seus fiéis seguidores não merecem isso.
Beijos com cheiro de água do mar
(que esta semana está de um verde e limpidez impressionantes!)
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