quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Máquina do tempo que se sente

Nunca se está imune. Isso é bom. Imunidade ao desejo pela vida é o mesmo que uma morte lúcida. Um cérebro preservado num pote de vidro que vê o passar do tempo sem nenhum sabor. A árvore em frente cresce; desenvolve os galhos e folhas; dá flores e frutos; perde a folhagem; seca. A paisagem seca. O sol se avermelha e cresce. Vermes gigantes passeiam lentamente. O pote cai e se quebra. Um meteorito que se choca violentamente contra o solo é a última visão. Emoção nenhuma em qualquer fase.
Eu não estava imune. Que bom. Os minutos passam com frio na barriga e leve dor no coração.



Abraço para H. G. Wells

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O teu nome é daqui

À margem do Tuz, pensava em boa parte da história que se tinha passado ali. Apesar disso, não se concentrava muito. Toda História, por maior que seja o seu H, começa no nascimento de quem a pensa. E são só letras em livros. Maior que essa é a que se escreve com o próprio sangue. Aquele que pulsa rápido por veias e artérias quando o natural do existir se confunde com o imaginado. Duas vidas se entrecruzando, de fato: a história que é e a história que se quer ser.
Uma outra imagem ajudava a conduzir aquele corpo, entretanto. Tinha nome, endereço, telefone, e-mail. Beleza ímpar. Outra história. Tão complexa quanto a dele. Força nuclear aquela. Ele orbitava. Não pelas leis newtonianas, mas as do amor. A essência maior da história-imagem. Talvez a única.
 As caminhadas em torno daquela salmoura são longas sempre. Como a relembrar antiquíssimas rotas. Como que a querer fortalecer os desejos tanto quanto os músculos da história-corpo. Todos exaustos. Mas com um destino estipulado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Viva!

Significativa sob vários aspectos a vitória de Dilma Rousseff. Por ser mulher, pelo passado na luta armada contra a ditadura, pela sequência no poder de um partido moldado de baixo para cima. Sou um otimista quando avalio a evolução humana. Nosso país, na eleição desse 31 de outubro, deu vários passos adiante nesse caminho evolutivo. Embora eu reconheça que poucos enxergarão essas maravilhas presentemente. Se nem eu próprio me sinto radiante. É que a felicidade não precisa vir com paixão. A Dilma, em seu discurso de vencedora, foi também bastante comedida, emocionalmente, como acredito que deva ser mesmo. Afinal, o que se anseia, como uma das metas principais, a erradicação da miséria, isso sim seria motivo de uma imensa alegria de toda pessoa que merecesse ser chamada de humana. Achei importante o discurso sereno. Demonstra espírito republicano. Reconhecimento de que a vitória não tem que ser sua, pessoal, mas de um projeto de nação. Estamos todos de parabéns, mesmo que alguns não reconheçam ou aceitem isso.

sábado, 30 de outubro de 2010

Debate

Acabou há pouco o debate entre os candidatos à Presidência. A meu ver, morno. Muito diferente da tônica da campanha que teve ataques intensos ao governo e à candidata Dilma, por parte da coligação que apoia o candidato Serra .
Campanhas políticas - e isso não é exclusividade brasileira - são uma coisa incivilizada. O objetivo principal é colocar o seu grupo ou partido no poder. O bem do país é secundário. O debate é importantíssimo e uma oposição ativa é fundamental para o processo democrático. Mas eu sonho em ver, algum dia, ideias e princípios no plano principal da disputa. Acho que isso poderá vir com o amadurecimento dos eleitores. Nessa eleição, particularmente, considerei que a quase invariabilidade dos índices mostrados pelas pesquisas prova que o eleitor não está se deixando influenciar tão facilmente por campanhas difamatórias. Apesar do evidente apoio de parte da grande imprensa ao candidato Serra, mostrando ostensivamente em horário nobre ou em reportagens de capa supostos escândalos envolvendo o governo e a candidata Dilma.
No pleito de agora, muito mais que factoides ou projetinhos de última hora, o que se compara são duas propostas de governo que tiveram ambas oito anos para se mostrar à nação brasileira. E a resposta do eleitorado é inequívoca. O que se quer é a continuidade do modelo atual, que longe de ser perfeito, deu mostras do que é um governo de origem nas classes mais humildes e amplamente voltado para estas classes. Mas com a inteligência de buscar soluções sem confrontos com o poder mundial, nem, tampouco, com submissão, como era comum nos governos passados. Provou, durante a grave crise econômica, que o Estado tem que ser forte, sim. Porque governos verdadeiramente democráticos governam para pessoas e não para empresas. Até se pode permitir que elas cresçam e se fortaleçam. Deve-se fazer isso. Mas estes resultados têm que atender aos interesses de toda a sociedade. Nenhum banco brasileiro quebrou durante a crise, ao contrário de gigantes americanos e europeus. Nem foi necessária a injeção maciça de dinheiro em nenhuma instituição. Prova de que ser de esquerda não quer dizer que se precise ser burro. Não dá pra revogar a Lei da Gravidade porque pobre não pode comprar paraquedas. Assim, muito do que foi feito durante o governo Lula pareceu uma adesão ao modelo capitalista internacional; quando o que se fazia e se faz é uma política econômica pragmática, mas com um bom princípio de distribuição de renda com programas como o bolsa família ou o ProUni e o aumento significativo de crédito. Além do número de empregos criados; três vezes maior que no governo anterior.
Diferença fundamental também foi o apoio às empresas públicas e o seu fortalecimento. Por mais que os tucanos tenham querido desmentir, os fatos mostram que eles são privatistas por princípio. Não à toa têm como aliados o antigo Partido Liberal, hoje DEM, representantes da direita mais retrógrada deste país. Privatizaram telefonia, eletricidade, estradas etc; e queriam, sim, privatizar a Petrobrás. Durante o governo Lula ela se transformou na quarta maior empresa do mundo (segunda na área de energia). E a descoberta do pré-sal e a sua exploração vai dar ao Brasil uma dimensão ímpar no cenário mundial, com reflexos ainda não totalmente estimados na melhoria da qualidade de vida de todo o nosso povo.
Não acredito em surpresas no domingo. A vantagem indicada pelas pesquisas é muito folgada. Comemoro desde já que após termos pela primeira vez um operário no cargo mais importante da nação, vamos ter lá uma mulher. Outra prova do avanço que este país está tendo, em termos de consciência política. A estrada é longa, e talvez nem tenha fim, mas estou confiante de que o rumo está certíssimo.



 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu sei que você não teve escolha

Morreu logo depois de ouvir Burn. Corte profundo e vermelho. Até gostou de ver. Último prazer. Talvez o único. Ainda teve tempo de se imaginar naquele Riff. O sangue era pela força e a velocidade empregues às cordas. Propositalmente branca. A guitarra. Propositalmente sinuosa. Quadril feminino. A essência de uma vida num solo. Não sobre um palco. Numa cadeira lateral. À margem. Como a vida toda. Só que desta vez ouviriam. Milhares de kW.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Dilma

Defendo o voto consciente. No entanto, acho pouco provável que alguém consiga escolher bem um candidato em período de campanha. Quando muito, se podem eliminar aqueles que evidentemente são despreparados. Aqui em São Paulo, o cômico Tiririca tem zombado do civismo que deveria marcar uma disputa democrática e no horário gratuito produz piadas grosseiras do tipo "vote no Tiririca; pior do que tá, não fica". Mas não só ele. Tem a candidata Cameron, 1969, que com vestimenta sensual e voz lasciva diz que "é preciso votar com prazer". E não vai aqui nenhum preconceito contra a possível profissão da moça. Ela tem tanto direito a pleitear uma vaga legislativa quanto uma médica, uma dona de casa ou qualquer outra profissional. Curioso é que a legislação havia vedado aos programas humorísticos produzirem quadros que se referissem a candidatos. Contra-senso felizmente anulado pelo STF.
Pior que exemplos apontados é ver ainda um Paulo Maluf, com toda a sua imensa cara de pau, pedindo votos com o seu mesmo discurso e o mesmo padrão que temos visto ao longo destas três últimas décadas. Felizmente, trata-se de cachorro morto, considerando todo o mal que já fez a esse Estado e a impossibilidade de repeti-lo. Há também exemplos de pessoas muito boas como seres humanos, mas com um discurso absolutamente ultrapassado, como o dos candidatos do PSOL, do PSTU  e de outros. Gente de quem eu já estive ao lado, e até adoraria estar de novo, desde que fosse para tomar um café.
Há uma entrevista da Dilma Rousseff no programa do Jô, de 2008, muito interessante. Embora razoavelmente longa para os padrões de internet, acho bastante conveniente como subsídio para um julgamento mais eficaz do que o que se possa ver na campanha televisiva, que é sempre demasiadamente produzida e artificializada. Ou que se perde em denuncismo, como o que prolifera nas hostes psdbistas, pela iminência de uma derrota já no primeiro turno.

Entrevista Dilma Rousseff no Programa do Jô

domingo, 8 de agosto de 2010

Pai possível

Na verdade, não sei que importância tenho na vida do meu filho, agora que nos vemos tão menos. Sei que se orgulha de torcer para o mesmo time. E me pede massagem nas costas antes de dormir, quando fica comigo. Não gosto dessa sensação de estar sempre em dívida com ele. Mas é um menino que não reclama. Parece feliz. Resisto à tentação de acreditar tê-lo visto mais genuinamente feliz em outros tempos. Só o agora e o de agora em diante importam.
Posso dar exemplos de ética, de respeito absoluto pelo outro, de constância. Ensino matemática, história, como o ensinei antes a ler e a escrever. Incentivo à astronomia e ao futebol, claro. Jogamos xadrez e construímos brinquedos juntos - não gosto e não recomendo os comprados, com raras exceções.
E tenho a obrigação de ensinar que existe vida após a morte. Não no sentido religioso.

Gabriel - 9 anos

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Todo mundo se machuca




Uma vez pedi a alguém que tocasse essa canção quando eu me fosse. Acho que ela não vai poder fazer isso. Talvez nem se lembre mais. Esqueceu tanto.
Penso que a única coisa ruim da morte é não podermos saber o quanto é boa. Pax Aeternum. Se eu fosse deus de mim mesmo, me daria apenas um novo tempo de consciência desta paz. Num lugar distante; de tudo que lembrasse humanidade. Não porque eu tenha algo contra os humanos. Ao contrário. Só queria não ter que sentir, de novo, saudade. A que terá me matado. Naquele momento, apenas o sabor pleno da serenidade; sorvete de abacaxi em dia calorento.
Depois nunca mais.

domingo, 18 de julho de 2010

Pra não esquecer de todo

"Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e agüentar. Todos os intolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos."
subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, Chiapas

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Hoje

O tempo não apaga as memórias, mas traz serenidade.

Beijo suas mãos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Aquecendo a memória

Ver na TV as cenas das geadas no sul me fez lembrar de um episódio da infância. Eu sempre passava as férias no sítio do meu avô em Ourinhos, no oeste paulista. Num mês de julho acordaram-me cedo para ver a geada. Lindo o pasto branquinho, as folhas das árvores congeladas. Quis ver mais. Meu tio me convidou para ir ver os estragos nas plantações. Saí do jeito que estava, de sandálias havaianas. Tomamos o estradão de terra ainda cheio de gelo. Estava tudo lindo. A mim não afetava a consciência pensar nos prejuízos que aquela beleza traria. Soube depois que se perdera muito da safra do café, principal produto da região naqueles tempos.
Estava tudo ótimo; até eu me dar conta que meus pés estavam congelados. Pobre do meu tio; teve que me carregar de volta nos ombros por mais de 1 quilômetro.
Sempre damos boas risadas ao lembrarmos dessa e de outras tantas aventuras que vivemos por lá.

domingo, 11 de julho de 2010

Final

Tem algo de melancólico nos finais dos eventos dedicados à alegria. Como se fosse a hora de voltar ao normal frio, tedioso e descolorido de todo dia. Pouco me importa se as grandes corporações patrocinadoras ganharam muito dinheiro. Milhões de seres humanos estiveram em sintonia. Milhares trocaram calor, sorrisos e choros nas praças.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bananas mecânicas

Uma derrota sempre dói. Para mim dói menos hoje em dia, depois de tantas. Estamos falando de futebol, né? De Brasil e Holanda, né? Então. Copa do Mundo é um torneio lotérico. Não é formulado para beneficiar o melhor. E nem acho que o Brasil tinha o melhor time. Tinha a cara do seu treinador, que é um bom brasileiro, só que muito formiga e pouco, quase nada, cigarra. A graça do futebol brasileiro era a sua cigarrice, ainda que com a dose necessária de responsabilidade. Fase que acabou em 1982, com a derrota da geração Zico-Sócrates-Falcão. Não por acaso, sei de cor aquele time e nem forçando lembraria os times campeões de 94 e 2002. Se é pra perder, melhor que seja com balé, com festa. Ganhar também seria quase acaso.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Código Platão

Historiador quebra o Código de Platão - as mensagens secretas escondidas nos escritos do filósofo.

Platão foi o Einstein da Idade de Ouro da Grécia e seu trabalho fundou a cultura e a ciência ocidentais.  Os achados do Dr. Jay Kennedy estão para revolucionar a história das origens do pensamento ocidental. Revelam que Platão usou um padrão regular de símbolos, herdado de antigos seguidores de Pitágoras, para dar a seus livros uma estrutura musical. Um século antes, Pitágoras declarara que planetas e estrelas faziam uma música inaudível, uma 'harmonia de esferas'. Platão imitou esta música escondida em seus livros.
Estes códigos mostram que Platão antecipou a Revolução Científica 2000 anos antes de Isaac Newton, descobrindo sua ideia mais importante: o livro da natureza é escrito na linguagem da matemática. As mensagens decodificadas abrem um modo surpreendente de unir ciência e religião. A beleza e a estupefação que a natureza nos causa, diz Platão, nos mostra que ela é divina; descobrir a ordem científica da natureza é se aproximar de Deus.
"Os livros de Platão desempenharam um papel fundamental na fundação da cultura ocidental, mas são misteriosos e terminam em enigmas," explica o Dr. Kennedy, da Universidade de Manchester.
"Na antiguidade, muitos de seus seguidores diziam que seus livros continham camadas escondidas de significados e códigos secretos, mas isto foi rejeitado por modernos estudiosos.
"É uma história longa e excitante, mas eu basicamente quebrei o código. Eu mostro rigorosamente que o livro realmente contém códigos e símbolos e destrinchados revelam a filosofia escondida de Platão."
"Isto é uma descoberta verdadeira, não uma simples reinterpretação."
Dr. Kennedy gastou 5 anos estudando os escritos de Platão e encontrou que em seu trabalho mais conhecido 'A República' ele colocou pedaços de palavras relacionados a música após cada duodécima parte de texto. Este padrão regular representa as doze notas da escala musical grega. Algumas notas eram harmônicas, outras dissonantes. Nos locais das notas harmônicas ele descreveu sons associados a amor e alegria, enquanto que nos locais das notas dissonantes foram marcados com sons abruptos de guerra e morte. Este código musical foi chave para decifrar inteiramente o sistema simbólico de Platão.
Dr. Kennedy, um pesquisador no Centro para a História da Ciência, Tecnologia e Medicina, diz: " Enquanto lemos seus livros, nossas emoções seguem os altos e baixos de uma escala musical. Platão faz de seus leitores instrumentos musicais."
Entretanto, Platão não projetou seus padrões secretos puramente por prazer - foi para sua segurança. As ideias dele eram uma ameaça perigosa à religião grega. Ele dizia que as leis da matemática e não os deuses controlavam o universo. O próprio professor de Platão fora executado por heresia. Sigilo era normal nos tempos antigos, especialmente para conhecimentos religiosos e esotéricos, mas para Platão era uma questão de vida ou morte.
Platão teve uma vida dramática e fascinante. Nascido 4 séculos antes de Cristo, quando Esparta derrotava a Atenas devastada por uma praga, ele escreveu 30 livros e fundou a primeira universidade do mundo, chamada de Academia. Era um feminista,   permitindo às mulheres estudarem na Academia; o primeiro grande defensor do amor romântico (em oposição aos casamentos arranjados por motivos políticos ou financeiros); e defendeu a homossexualidade em seus livros. Acrescente-se que ele foi capturado por piratas e vendido como escravo até ser resgatado por amigos.
Dr. Kennedy explica: "a importancia de Platão não pode ser minimizada. Ele deslocou a humanidade de uma sociedade de guerreiros para uma sociedade de sabedoria. Hoje nossos heróis são Einstein e Shakespeare - e não cavaleiros em armaduras brilhantes - por causa dele."
Ao longo dos anos o Dr. Kennedy cuidadosamente retirou as camadas simbólicas dividindo cada passo com os alunos em Manchester e com especialistas no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Ele lembra: "Não havia uma Pedra de Rosetta. Para anunciar um resultado como este eu precisei de provas independentes e rigorosas, baseadas em evidências cristalinas.
"O resultado foi surpreendente - foi como abrir uma tumba e encontrar novos evangelhos escritos pelo próprio Jesus Cristo.
"Platão está sorrindo. Enviou-nos uma cápsula do tempo."
E completa: "Isto é só o começo de algo grande. Levará uma geração pra se estabelecerem as implicações. Todas as 2000 páginas contém símbolos não detectados."

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Conquistar com braço forte

Nas fábulas a gente acredita na fantasia pra enxergar a beleza da historinha. Ontem, no gol do "Fabuloso", a gente teria que fingir que não viu a ajeitadinha com o braço para se ver a beleza do lance. Eu, infelizmente, não consigo. Teria vibrado intensamente se o Luis, naquela conversa com o árbitro, tivesse admito a irregularidade. De positivo, nesse gol, só a oportunidade de ensinar ao meu filho de 9 anos, aproveitando o grande interesse que ele vem demonstrando pela Copa, que aquele comportamento não é correto. Não que tenha sido tão grave como o que fizeram Maradona "la mano de Diós", na Copa de 86 ou Henry "le main de Dieu" nas últimas eliminatórias.
O gol foi tão plástico que não está provocando tanta polêmica. Até porque o comportamento violento dos marfineses e a imensa diferença técnica entre os times não deixa margens para se questionar nossa vitória. Também não rotularia o Luis de desonesto, num mundo que vê atitudes como aquelas com razoável condescendência. Fica na conta da "boa malandragem". Inofensiva, pensam. Para mim, é uma inadequação moral persistente. Fosse o contrário, se por um lance assim perdêssemos um campeonato, o mundo desabaria por aqui.
Incomodam-me as vitórias conseguidas com irregularidades tanto quanto as derrotas. O nosso futebol é grande e bonito demais. Poderia dispensar essas baixezas e ainda assim ser historicamente vencedor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O futuro pode estar próximo

Segundo Vernor Vinge, poderemos atingir, no decorrer deste século, o que ele chama de Singularidade Tecnológica; estágio de desenvolvimento em que seres humanos e máquinas se integrarão de tal forma que não se distinguirão uns dos outros. Mais relevante nesse processo será a possibilidade de se transferir uma mente humana para uma máquina, o que virtualmente significaria a morte da morte. É um assunto de altíssimo teor de polêmica, notadamente pelas muitas implicações que causará. Todo o existir se ergue sobre a ideia de finitude. Toda a história da humanidade se sustenta sobre a renovação lenta e constante de gerações; e consequentemente de culturas e ideias. E para as religiões? Seria o fim?
Raymond Kurzweil, propagador daquelas ideias de Vinge, e ele próprio um cientista visionário, que previu muito antecipadamente a importância que alcançaria a Internet, fala dos avanços da ciência que permitiriam, num primeiro momento, o prolongamento da vida, como a nanotecnologia e o uso científico de alimentos e remédios. Há até uma data prevista para a tal singularidade: 2045.
Uma pré-condição indispensável seria o pleno estabelecimento da inteligência artificial, ou pelo menos num nível que permita o desenvolvimento de um hardware que possa receber o conteúdo de um cérebro humano. Para tanto se confia na continuidade da Lei de Moore que prevê a duplicação da capacidade de processamento a cada 12 meses, o que vem acontecendo, de fato, desde 1965, quando a lei foi formulada.
Um parâmetro para o reconhecimento de IA no nível humano é o chamado Teste de Turing: um tipo que questionário cujas respostas deveriam distinguir humanos de máquinas. No filme "Blade Runner" esse teste é usado pelo policial Deckard para identificar replicantes. Alguns softwares específicos como o ELIZA enganam facilmente humanos não treinados, embora não se trate de IA humana genuína, o que só se espera para daqui a cerca de 20 anos.
Imagine que após a Singularidade um ser humano estaria pessoalmente ligado a toda rede mundial de computadores ou a todas as demais pessoas. E com capacidade de processamento multiplicada por 1 milhão, como se calcula. A perpetuação de cada indivíduo se daria pela simples troca do hardware. As relações entre humanos ocorreriam preferencialmente em ambientes virtuais, com uma auto-imagem ou através de avatares.
Num mundo assim, qual a necessidade de reprodução natural? E família, sociedade, pátria, todos conceitos candidatos à obsolescência.
Religiosos, penso, não devem acreditar que algo assim seja possível. A morte, pelo menos a morte do corpo, é sempre algo fundamental nos desígnios divinos para a humanidade, em várias religiões. Conceitos como o de corpo e de alma provavelmente se perderiam também. Talvez até mesmo a consciência individual, já que todas estariam interligadas.
Tudo muito difícil de se prever numa revolução dessa monta num espaço de tempo tão curto. Eu, embora ateu e entusiasta de avanços tecnológicos a favor da vida, não chego a simpatizar com isso tudo. Estou abrindo uma discussão. Peço aos frequentadores desse blog que usem à vontade o espaço de comentários. Espero mesmo que possa haver interação entre comentaristas e que desenvolvamos bem mais o assunto. Eu, ao menos, responderei a tudo que for deixado lá.


Sejam bem-vindos!




http://www.kurzweilai.net/index.html?flash=1
http://en.wikipedia.org/wiki/Turing_test

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Jabulani

Por volta dos 5 anos, ainda morando no interior, ganhei de presente de Natal uma bolinha de plástico - rígido, não destas flexíveis que se dão de brinde, hoje em dia. Meu pai fez algum sacrifício, porque mesmo algo tão barato era um desfalque significativo no orçamento familiar daqueles tempos.
Saí todo feliz para o quintal, ansioso para estrear o brinquedo. No primeiro chute ela foi ao encontro de um prego que se expunha no alto de um poste de madeira. E ali ficou, presa. E preso fiquei eu de estupefação. Aproveitei para prender o choro também.
Os jogadores da seleção brasileira têm feito coro contra a bola da copa, essa maravilha de R$ 400,00 aí de cima. Como a maioria deles teve infância igual ou mais pobre que a minha, estão perdoados. A não ser que estejam fazendo jogo comercial, já que são patrocinados pela Nike, a maior rival da Adidas; aí não acharia muito bonito, não.
Daí teve o jogo contra o Zimbabwe. E o Michel Bastos emplacou 139 km/h naquele gol de falta. Não me lembro de já ter visto, em toda a minha vida, chute tão veloz . Depois o Maicon (homenagem a Michael Douglas e Marlon Brando, segundo a mãe dele) fez aquele lançamento altamente preciso para o Robinho fazer o segundo gol. Êta bola ruim.

domingo, 30 de maio de 2010

Querido, ainda está vazando!

A British Petroleum, após mais uma tentativa frustrada de conter a oleorragia no Golfo do México, pediu mais um tempo para resolver o problema:

Claaaaaro! Vocês têm até o fim do mundo.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Esperança Vã

Nem era Natal, mas se prometia um presente que seria o maior de todos, não é, criança?
E você pôs sua melhor roupa e o mais lindo sorriso.
E até parou com as travessuras.
Sonhou dançar de roda e salvar o mundo com um abraço apertado.
Coloriu de diversos modos céus, mares, terras e amores.

Não houve maldade
Apenas que as ferramentas oníricas não são compatíveis com a mecânica das coisas que parecem existir.
Hoje, quando a máquina que parece contar o tempo te ressuscitou, você não viu as suas cores.
E estranhou esse mundo cinza que parece verdadeiro.

sábado, 22 de maio de 2010

... por estar cochilando!

"Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?..."


Machado de Assis, o meu predileto entre quaisquer escritores de quaisquer línguas, nas que existem e nas ainda por inventar, emplacou o "Dom Casmurro" entre os 10 melhores romances em língua portuguesa. Isso numa eleição interna na Universidade de Coimbra, em Portugal. Um bom resultado conseguido fora de casa. Foi o único brasileiro da lista. Eu, por mim, ainda incluiria um Guimarães Rosa, um Veríssimo, o Neymar e o Ganso.


O seu Saramago também está lá, viu Vê! Claro.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pérola

Meu sobrinho de 5 anos vendo a representação de Jesus crucificado perguntou à avó o porquê daquilo. Ela respondeu que era por causa dos nossos pecados, as coisas erradas que nós fazemos. E ele: então eu só sou culpado pelo prego nos pés; porque eu sou pequenininho.

domingo, 9 de maio de 2010

Para uma mulher

Nossas idades hoje somam um século e uma década. Mas já somaram apenas dezoito. Tão pouca a diferença que chegará tempo em que passaremos por irmãos. Pois se entre mim e a caçula sobram apenas 17.
Parece enunciado de problema matemático. E de fato qualquer um mais atento não terá dificuldade em saber as 3 idades. Mas o resultado frio de qualquer equação não poderia definir o indefinível e sempre inacreditável amor que vem da senhora.
Sou do tempo em que se aprendia, ao menos no interior, que as pessoas adultas e principalmente familiares eram senhores e senhoras. Costume hoje abandonado em qualquer lugar. Meu filho me chama a mim e à mãe de você. Nada contra. Mas quando eu uso esse tratamento é porque em qualquer tempo que minha memória traga sempre terei percebido me envolvendo uma senhora. Mesmo quando me embalava em seu colo uma menina. Como aquela senhora de Nazareth, que ninava nas horas de choro e engolia o próprio choro nas horas de cruz. Acho que a intensidade do seu amor e do seu imenso cuidado sempre foram e até os dias de hoje coerentes com SENHORA.
Minha dívida com só aumenta. E nem um filho jamais teria mesmo como pagar. Eu só posso me reconhecer obrigado. E talvez devolver um pouco. Hoje ao menos.


Te amo, Mãe.



quinta-feira, 29 de abril de 2010

Refrão de um bolero

A peça não era boa. Fui só para vê-la, como todas as outras vezes. Secretamente, como sempre. Na última fila. Escondido. Como sempre. Mas ontem queria terminar diferente. Ia entregar-lhe flores. Rosas vermelhas; contraste perfeito com o azul dos olhos dela. Levei tanto tempo para decidir, criar coragem. Quanta dispneia, quanta taquicardia. E pernas bambas. Certa vez precisei andar uma hora na chuva para voltar ao normal.
Mas ontem não havia chuva. Quando terminou a peça, esperei um pouco, até que todos pudessem fazer seus cumprimentos. Ela estava linda, como sempre, com seu sorriso de dentes perfeitos. As luzes de efeito já se haviam apagado, mas eu a via sob um foco, tudo escuro a volta. Monólogo de pensamentos que eu imaginava. E a aplaudia, também em pensamentos. Até porque quase tudo o que eu pensava a incluía.
Mas ontem outras luzes se acenderam. Apareceram um homem e um menino. Eles foram até ela e a abraçaram. Depois o homem deu-lhe um longo beijo. Beijo de paixão. Aí ouvi o menino chamá-los pai e mãe.
Ontem não chovia. Saí às ruas escuras e atirei as rosas em alguma lixeira, não tenho certeza. Lembro de ter entrado em algum boteco de iluminação ruim e gentes caricatas. E pedi aguardente, na falta das outras águas.
Acordei tarde, querendo não ter acordado. Hoje a última fila terá um lugar vago.


Coração na mão como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser.
Um erro assim, tão vulgar, nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira ele consegue nos achar num bar
Com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro
E uma cara embriagada no espelho do banheiro
(Refrão de um bolero - Engenheiros do Hawaii)

domingo, 25 de abril de 2010

Coração exposto

Chega um tempo em que não faz mais diferença. Cria-se imunidade.
Parafraseando Salomão: tudo é ilusão e vento que passa.
De verdade tão somente os olhos vermelhos da mãe, cercada por paredes e luzes brancas.
Providencial é o que o universo tem de cíclico. Recria as ilusões para cada nova geração. E a existência se torna  assim palatável.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Novo comercial do Itaú

Acabei de ver no intervalo do futebol: peça publicitária do Itaú que alude por nomes, vestimentas e ambientação à convivência entre judeus e palestinos. Cria-se uma situação tensa entre dois meninos das duas etnias, que se resolve quando ambos mostram a camisa da seleção brasileira sob as roupas. Aparece uma bola e os dois passam a se divertir juntos.
Achei ousado e até bonito, por mais que a imagem de um grande banco sempre possa parecer como parte de um modelo de mundo em que as coisas são intrinsecamente conflituosas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Pesquisadores da Unicamp no Haiti

Peguei esse endereço de um blog de brasileiros no Haiti lá no blog da Patricia Boudakian

http://lacitadelle.wordpress.com/page/2/

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Zilda

Ela nasceu num 25 de agosto, como eu. E tinha o nome de minha mãe. As coincidencias terminam aí, mas juro que aqui bem dentro, no melhor espaço de mim, eu já quis muito ser alguém como ela.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quo vadis orbi? E quem leva?

Estava aqui pensando no protagonismo que o Brasil passou a exercer mundialmente, ao menos no campo político, e da dependência de uma personalidade como a do Lula para que um país consiga esse status.
Sempre tive como ideal político que governos e debates se dessem exclusivamente sobre ideias. Tinha comigo que nas eleições se deveriam comparar apenas propostas, sem que precisassem ser importantes os nomes escolhidos pelos partidos. Era modelo aquilo que se faz nos países nórdicos, ou em gigantes como o Canadá e a Austrália. Quem medianamente informado é capaz de dizer um nome de primeiro-ministro de algum deste países? Que no entanto são bons exemplos de liberdade, de distribuição de riquezas e de constância.
Mas aí me vem à mente acontecimentos de repercussão mundial como o recente COP 15, que justamente se deu num destes países-modelo. Como se comportaram os líderes destes países, que posições defendiam? Tiveram influência ou pelo menos tentaram influir nos resultados? Sabe-se que o encontro fracassou. E o fracasso é creditado principalmente a Estados Unidos e China. Protagonismo ditado exclusivamente pelo poderio econômico? Foi o que acabou acontecendo, numa análise fria dos resultados. Mas quem acompanhou os acontecimentos durante os dias em que durou o encontro viu a relevância das atuações individuais de certos líderes. Claro, o nome mais pesado foi o de Barack Obama, mas fala-se que nos bastidores a ação chinesa teria sido decisiva no sentido de se evitar um compromisso que significasse diminuição de suas expectativas de crescimento, já que sua economia é fortemente dependente de energia geradora de gases estufa.
Em situações limite como essa, cabe o modelo institucional? A instituição ONU gerenciando os interesses das instituições afiliadas? Ou, diante dos impasses fazem-se necessários líderes de personalidade forte e negociadores hábeis?

Continua...