Segundo Vernor Vinge, poderemos atingir, no decorrer deste século, o que ele chama de Singularidade Tecnológica; estágio de desenvolvimento em que seres humanos e máquinas se integrarão de tal forma que não se distinguirão uns dos outros. Mais relevante nesse processo será a possibilidade de se transferir uma mente humana para uma máquina, o que virtualmente significaria a morte da morte. É um assunto de altíssimo teor de polêmica, notadamente pelas muitas implicações que causará. Todo o existir se ergue sobre a ideia de finitude. Toda a história da humanidade se sustenta sobre a renovação lenta e constante de gerações; e consequentemente de culturas e ideias. E para as religiões? Seria o fim?
Raymond Kurzweil, propagador daquelas ideias de Vinge, e ele próprio um cientista visionário, que previu muito antecipadamente a importância que alcançaria a Internet, fala dos avanços da ciência que permitiriam, num primeiro momento, o prolongamento da vida, como a nanotecnologia e o uso científico de alimentos e remédios. Há até uma data prevista para a tal singularidade: 2045.
Uma pré-condição indispensável seria o pleno estabelecimento da inteligência artificial, ou pelo menos num nível que permita o desenvolvimento de um hardware que possa receber o conteúdo de um cérebro humano. Para tanto se confia na continuidade da Lei de Moore que prevê a duplicação da capacidade de processamento a cada 12 meses, o que vem acontecendo, de fato, desde 1965, quando a lei foi formulada.
Um parâmetro para o reconhecimento de IA no nível humano é o chamado Teste de Turing: um tipo que questionário cujas respostas deveriam distinguir humanos de máquinas. No filme "Blade Runner" esse teste é usado pelo policial Deckard para identificar replicantes. Alguns softwares específicos como o ELIZA enganam facilmente humanos não treinados, embora não se trate de IA humana genuína, o que só se espera para daqui a cerca de 20 anos.
Imagine que após a Singularidade um ser humano estaria pessoalmente ligado a toda rede mundial de computadores ou a todas as demais pessoas. E com capacidade de processamento multiplicada por 1 milhão, como se calcula. A perpetuação de cada indivíduo se daria pela simples troca do hardware. As relações entre humanos ocorreriam preferencialmente em ambientes virtuais, com uma auto-imagem ou através de avatares.
Num mundo assim, qual a necessidade de reprodução natural? E família, sociedade, pátria, todos conceitos candidatos à obsolescência.
Religiosos, penso, não devem acreditar que algo assim seja possível. A morte, pelo menos a morte do corpo, é sempre algo fundamental nos desígnios divinos para a humanidade, em várias religiões. Conceitos como o de corpo e de alma provavelmente se perderiam também. Talvez até mesmo a consciência individual, já que todas estariam interligadas.
Tudo muito difícil de se prever numa revolução dessa monta num espaço de tempo tão curto. Eu, embora ateu e entusiasta de avanços tecnológicos a favor da vida, não chego a simpatizar com isso tudo. Estou abrindo uma discussão. Peço aos frequentadores desse blog que usem à vontade o espaço de comentários. Espero mesmo que possa haver interação entre comentaristas e que desenvolvamos bem mais o assunto. Eu, ao menos, responderei a tudo que for deixado lá.
Sejam bem-vindos!
http://www.kurzweilai.net/index.html?flash=1
http://en.wikipedia.org/wiki/Turing_test
15 comentários :
Tá, mas adoraria ter o seu cérebro na minha cabeça por, pelo menos, um dia. :P
Só vejo uma vantagem nisso tudo: o fato de ser uma boa fonte de inspiração para poetas e cineastas...
Brincadeiras à parte meu querido, acho isso tudo tão possível, o que me apavora de verdade.
Também me assusta um pouco, Si, mas se formos pensar bem, a gente já convive desde sempre com essa promessa de uma vida muito diferente da que conhecemos através das religiões. Nenhuma delas fala de uma continuidade dessa realidade que a gente aprendeu a gostar. Pra quem como eu e você não acredita nas religiões o apagar eterno que é a morte não chega a encantar. Nesse caso, ficar por aqui, mesmo que trocando músculos por invólucros metálicos ou plásticos e neurônios por bits e bytes pode ser uma boa. Puxar o fio da tomada sempre seria uma alternativa.
Cê quer o meu cérebro? Tá baratinho. E ainda leva de brinde o resto todo rs.
Uau! Adorei o post.
Tsc, essa mania de brincar de Deus...
Ó, se voce viesse com essa ideia a cinco anos atras, eu apenas responderia: "impossivel, meu caro", mas hoje, penso diferente e em se tratando de avanços tecnológicos tanta coisa boa já foi feita! Mas aí que tá e se isso "cai em mãos erradas?" [como saber quem são as maos erradas? hm]
Lembra do filme Matrix? Então desde que o assisti, bateu uma certa desconfiança de tudo que vejo hehe
Ta enfim, a minha opinião é não me importo. Não fico com medo e nem entusiasmada.
Vou esperar os outros comentarios e volto! >=P
Beijo. beijo. beijo
A (O) Google já deve ter comprado os direitos, Vãzinha. Mas o Irã deve estar de olho também, com o apoio do Brasil e da Turquia.
Matrix? Quase tudo a ver. A não ser que seria uma escolha consciente da própria humanidade. Então não haveria um Neo pra nos salvar. Sabia que Neo é anagrama de ONE, o primeiro, o messias? Dizem que a mitologia do filme é toda gnóstica. Já li alguma coisa e parece mesmo que tem tudo a ver.
3 beijos pra ti também que eu gosto de 3.
Pois é! [minha opinião] o único que prestou na trilogia Matrix foi o I mesmo, porque os outros parece que foram contra a filosofia e misterio do primeiro.. =/
Ainda falando de filme, eu chorei litros com aquele gurizinho robô do filme AI que tinha veneração pela 'mae'. Lembra!?
Mas o legal de ser robô poderia ser o fato de que se algo não ta muito legal, só dá um 'control alt del' hehehehehe
Ó mas gente, já pensou se nosso futuro for que nem em 'Demolidor' e ter de usar aquelas tres conchas!!! =O
Venha, que o que vem é perfeição!!! Se não for a gente formata! =P
Beijo tree!
Pois é, tinha as três conchas. Desse 3 eu não ia gostar não. Nem gostei também do Matrix como trilogia. Não precisava ter ido além do primeiro filme.
Continuando com a simbologia, a namorada do Neo era a Trinity: trindade, literalmente; trindade cristã.
Mas sabe que se o amor puder ser preservado nesse estranho mundo novo, tudo o mais será aceitável. Amor como o do gurizinho que você falou.
Meu muito querido poeta
Se ainda podes a isto indagar é porque insconcientemente esta suportando... Deixa correr...
Sem um indagar ao menos, já estaria morto...
A força também mora nas interrogações e onde menos se espera...
Te abraço com carinho
Aí que ta Alvim!! O guri do filme que voce defende tanto como tendo amor puro e tal dessa forminha piegas que só voce consegue ser, era um ROBÔ! Hohoho
E aí, hum?!
Bisous!
Como romântico piegas eu diria, Vã, que o amor é um efeito colateral da inteligência; não importa se natural ou sintética. Em outros tempos eu diria até o contrário: que a inteligência seria a filha predileta do amor.
Ahn mas então!! Se sentimento tão nobre como o amor pode ser preservado numa intelingencia artificial, tanto medo não procede!? Neam?
Acho que o medo tem mais a ver com apego. Estamos há mais de 2 milhões de anos vivendo nesse mundo físico. Pensar que de uma hora para outra vamos perder tudo isso? Mas é só apego. No fim das contas serão consciências tentando se achar no universo, como sempre foi e talvez nunca deixe de ser.
Ahn mas eu nem queria trocar esse corpitcho de carne por um de lata! =(
é inegável a necessidade que o homem, de um modo geral, tem de ter um deus; a ideia de remissão dos pecados e vida eterna é por demais tentadora e reconfortante. e a de um 'moderador' da vida também. e não seria ainda mais tentador (e reconfortante) ter um deus que você mesmo desenvolveu e sobre o qual você tem controle (ou acredita que tem)? um deus cuja binariedade da linguagem o torna mais decifrável, sem a necessidade de um nostradamus falível? pois é esse o pensamento que me invadiu ao ler o texto “o futuro pode estar próximo”, postado aqui; que a relação entre homem e tecnologia passa a se mostrar religiosa, sagrada, no sentido primeiro do termo. me parece que, mais do que brincar de ou bancar o deus, o homem quer mesmo é bancar o deus e o sacerdote, na medida em que inventa seu próprio deus. só não sabemos ainda qual sacrifício esse deus-tecnologia exigirá. e eu já me arrependi de não ter escolhido fazer, há duas décadas, o curso técnico de computação (processamento de dados na verdade) em vez do curso de contabilidade... acendemos, então, uma vela ou uma lâmpada?
Renato, é uma boa surpresa tê-lo por aqui.
Penso que sacerdotes sempre manipularam seus respectivos deuses. No caso de uma hiper-revolução tecnológica como essa, se se criarem classes de indivíduos (ou de redes) e houver uma classe dominante, essa classe vai inventar seus deuses pra justificar a dominação. Tomara que não se criem classes ou toda essa tecnologia não terá servido de nada.
Abraço, Renato, volte sempre. Seus comentários são enriquecedores.
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