domingo, 15 de julho de 2007

Flor da Pele

Fui ver o Fotoblog de um amigo.
A partir de certa foto, comecei a chorar e não parei mais. Tô tão a flor-da-pele que de ver medalha de bronze, derreto. Né Baleiro. Bem menininha, mesmo. Né, Maira. Abaixo os arquétipos do macho. Se sorrir não posso mais, ao menos que eu possa chorar sem limites culturais.
Obrigado pela oportunidade, Poder, que seu blog me deu de sentir saudade do sentir saudade.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Vendo o fotoblog de um amigo de infância, comecei a chorar ao ver certa foto e aí não parei mais até o fim da visita.

A saudade dói, todo mundo sabe, mas a saudade de ter saudade é o reumatismo das dores da alma. Dessas dores que se não são mortais, nos acompanham até a morte.

Houve tempo em que me era impossível passar mais do que cinco meses longe da minha terra e do meu povo. Era o tempo que separava os dois períodos de férias do ano. Agora já são mais de nove anos sem aparecer por lá. Nesse período casei, tive filho, fui descasado, atirado a uma mata escura e densa às margens do rio da vida.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Pai

Meu pai era fanático por futebol. Na juventude tinha sido centro-avante num time amador de Ribeirão do Sul. A lenda diz que o Tonhão era um perna-de-pau, mas há controvérsias.

Lembro-me dele muito vaidoso; jamais saía de casa sem que as roupas estivessem perfeitamente engomadas, sapatos engraxados e cabelos sempre tingidos, para esconder as cãs. Além de jogar bola, em sua juventude animava festas tocando sanfona. Tocava bem, isto eu mesmo vi, embora já não mais em festas. Esse seu mundo acabou ficando para trás com as responsabilidades familiares.

Viemos para o ABC tentar uma condição melhor de vida, eu e minha irmã muito pequenos ainda. Naqueles tempos vivíamos o “milagre econômico” do Delfim e dos milicos e não era difícil de se conseguir emprego; e o Seu Antonio começou a trabalhar numa metalúrgica.
Era um homem retraído, de pouca conversa. A propósito, ele e eu jamais conversávamos; vivíamos na mesma casa como estranhos, tínhamos dificuldade de ocupar um mesmo cômodo se não houvesse alguma outra pessoa que nos servisse de escudo. Para piorar, virei torcedor do Santos, o maior rival do Corinthians dele naqueles tempos.

Nas famosas greves do ABC comandadas por Lula, meu pai participou. Não que ele tivesse uma propulsão ideológica; os piquetes o forçaram a participar. Ainda assim, chegou a ir a algumas assembléias no famoso Estádio de Vila Euclides.
Aquele período marcou-me para a vida. Muitas das minhas opções posteriores tiveram ali sua gênese. A primeira foi o alinhamento com o PT, desde a sua fundação. Meu pai também se tornou um simpatizante, sem que um não soubesse do outro. Naqueles tempos dava medo declarar-se de esquerda, ainda que num universo tão restrito como o doméstico.

Ao final do jogo contra a França na Copa daquele ano, meu pai não ficou tão decepcionado com a derrota. Parecia então mais preocupado com umas dores que vinha sentindo. Começou dali há pouco uma bateria de exames. Descobriu-se um tumor no cólon que precisaria ser estirpado cirurgicamente. Ainda no mês de julho deu-se a cirurgia. Sem sucesso. Concluíram que não haveria nada a fazer além de tentar minorar a dor. Deram-lhe dois ou três meses mais de vida.
Já se passaram cinco meses e ele continuava resistindo, apesar da rotina casa-hospital. Na noite de natal tivemos que levá-lo mais uma vez à emergência. Não ficou internado, mas no espaço de tempo em que ficamos lá, deu-se um pequeno milagre; conversamos eu e ele. Falamos de saudade, de futebol de outros tempos, de como a vida era tranqüila no interior. Conversa de pai e filho. A primeira e a última.
As internações ficaram mais longas e os períodos em casa, mais curtos. Sabíamos que não demoraria o fim.

A vida continuava paralelamente e eu conseguira passar no Vestibular da Fatec, o meu último presente ao meu pai. As aulas começaram em março.

Na tarde do dia 27 daquele mês, uma sexta-feira, nos avisaram do hospital que meu pai tinha entrado em coma. Corremos todos pra lá. Nós o encontramos respirando por aparelhos. Curiosamente o seu cabelo ficara totalmente branco.
Vieram também alguns dos irmãos do interior e outros parentes e amigos. Foi uma noite muito difícil, passamos todos acordados naquela sala de espera do hospital. Pela manhã, nos convenceram a mim e minha mãe a virmos para casa descansarmos um pouco. Mal entramos em casa e chegou o aviso do falecimento.

Às vezes, quando vejo a chuva, vêm-me à memória uma cena da infância, na nossa casa no sítio; eu deveria ter uns três ou quatro anos: meu pai de pé observando a chuva pela porta da sala, vestindo uma capa grossa. Eu encostado às pernas dele também observando a chuva pela fresta da capa.

Te amo pai.

sábado, 23 de junho de 2007

Primeiro Amor

R. era a menina mais sem graça da turma, a mesma turma desde o primeiro ano. Tinha aqueles óculos grossos e nunca se destacava em nada. Estudamos quatro anos juntos e não me lembro de ter conversado com ela uma vez sequer, embora conversar jamais tenha sido o meu forte. Na quinta série fui estudar à noite, eu era dois anos mais velho que a média dos demais, e a minha antiga turma continuou de manhã. Perdi o contato com todos.

Fui à procissão de Corpus Christi daquele ano, a contra-gosto; minha mãe era enfronhada nas coisas da igreja e eu já era comunistinha e ateuzinho; não, só ateuzinho; vivíamos ainda sob a ditadura militar e um menino comum de 12 anos não poderia se alinhar com aqueles comedores de criancinhas; era isso que se dizia deles.
Tinha algo bacana no dia de Corpus Christi: os enfeites nas ruas. Mais tarde eu próprio ajudaria algumas vezes. Mas naquele ano algo me chamou mais a atenção. À frente da procissão iam uns anjinhos, meninos e meninas. Uma das meninas era R..

Também por conta da ditadura a exposição de corpos femininos na TV não existia naquela época, e a revista Homem (depois virou Playboy) tinha as capas lacradas nas bancas. A única manifestação erótica que no permitiam ver eram os falsos e comportados beijos das novelas, que mesmo assim me deixavam ruborizado na presença dos familiares e das visitas, muito constantes naqueles tempos. Educação sexual dentro das famílias não existia e nas escolas mal se esboçava. Essa situação parece não ter mudado grande coisa until now.
Nem todos os meninos eram tão abestalhados. Alguns falavam de coisas que eu nem imaginava.
Nem deveria estar falando de erotismo por mim mesmo. Falo aqui porque uma psicóloga amiga minha afirma que todas os desejos românticos são manifestações eróticas. Nunca que eu por mim mesmo imaginaria naqueles tempos que o príncipe encantado só pensasse naquilo com a Branca de Neve (muito menos os sete anões). E ainda hoje tendo a discordar da minha amiga; mas isso eu guardo só pra mim.

O que eu senti naquela quinta-feira de Corpus Christi, não me lembra erotismo; relacionaria melhor com êxtase místico, comparando com relatos de beatos históricos. A sensação de expansão do ser, o coração acelerado, o desligamento do resto do mundo. Prazer. Indescritível!

A procissão acabava na igreja. No altar estavam perfilados os anjos e anjas. E R. eu posso jurar que brilhava. Cabelos negros compridos, rosto perfeito, olhos de pureza celestial, não mais encobertos pelos óculos, corpo honestamente moldado pelos hormônios (isso eu só fui ver depois, sem a fantasia, em outras missas).
Nunca tinha conversado com ela antes e tampouco conversei depois. Ela jamais soube o que causou em mim. Ninguém soube. É a primeira vez que exponho essa estória. R., vi-a depois nada angelical namorando outros rapazes, mas então eu também já tinha nova paixão, embora igualmente platônica. Desta, duradoura que tenha sido não sei se vale a pena contar, a não ser que C., sabendo dos meus sentimentos (por terceiros), me dava alguns encontrões na hora do recreio. Só mais tarde fui me dar conta que foram de propósito (eu era bem mais tapado que agora).

O tempo passou, C. se apaixonou por um vizinho meu e eu fui estudar numa escola onde só tinha meninos (não me apaixonei por ninguém de lá, viu?). No adulto, outros sentimentos nasceram e morreram; sempre muito fortes, mas tinham outra natureza. Na certa falarei deles em outras ocasiões.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

IWD (versão língua-pátria)

Tenho uma teoria sobre vocês, mulheres: eu penso que vocês são ET's. Sim, vocês vieram de uma outra galáxia. Em algum momento de nossa pré-história sua espaçonave teve de fazer um pouso de emergência aqui na Terra porque vocês esqueceram de abastecer o tanque com plutônio radiativo.
Assim que chegaram, o computador de pulso de sua líder concluiu que não havia vida inteligente neste planeta.
O Alto Conselho que logo se instalou decidiu organizar algumas expedições para reconhecimento de clima, plantas e animais porque vocês já não alimentavam esperanças de voltar para casa. Um grupo avançado a alguns quilômetros dali foi surpreendido com uma cena em que animais de corpos peludos executavam uma espécie de ritual: machos comendo suas fêmeas, literalmente! Vocês descobriram mais tarde que eles faziam isso porque não sabiam nada melhor para fazer com suas fêmeas.
O problema para estes animais exóticos era que as fêmeas estavam próximas da extinção. Então sua líder teve uma idéia: - os corpos destes animais quando depilados parecem miniaturas dos nossos machos e nossas cientistas descobriram que há compatibilidade genética. Então ela pronunciou a famosa frase histórica: -"Quem não tem cão, caça com gato."
Desta forma suas ancestrais decidiram substituir as fêmeas daquela espécie (que resolveram chamar de "homens"). Não sem antes ensinar-lhes algumas práticas civilizadas. Os homens ficaram extasiados!
Outra decisão que vocês tomaram foi a de fingir que eram tão estúpidas quanto as fêmeas que substituiram ("mas nós tomaremos conta da educação das crianças, ou as futuras gerações de mulheres jamais poderão retornar ao nosso belo planeta").
Algo estranho aconteceu a partir daqueles dias. Vocês começaram a sangrar uma vez por mês. Acredito que isto seja algo como um "banzo alienígena".

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Infância I

Caçar passarinho era uma das muitas diversões da vida no interior. Roça mesmo. Com plantações no lugar das casas, do asfalto e das gentes apressadas. Com ar sujo da poeira da invernada em lugar do monóxido de carbono. Com um silêncio monótono sem os tic-tacs dos muitos relógios das cidades. Desnecessários, já que o tempo ali não passava.
­— O Tio vai demorar, Vó!
O Tio era o companheiro das caçadas. Pobres passarinhos. Já os via com as almas mais penadas que os corpos em vida. Mas como demorava o Tio! A cada barulho de trator... — Agora são eles, Vó! "Eles" eram o Vô, os outros tios e mais o Tio.
Chegavam imundos, roupas cheias de remendos, parecidas com as das quadrilhas de São João. Chapelões; nada parecidos com os dos heróis dos filmes.
Mas o meu Tio era o meu herói. Forte como um touro. Era capaz de atirar uma pedra do tamanho de uma laranja (e às vezes a própria) a mais de cem metros. E com boa pontaria!
— Vamos caçar passarinhos, Tio?
— Nada disso! Tem que apartá os bezerro e levá a lavage dos porco! – Era a Vó que gritava da cozinha. O Tio saía contrariado, resmungando. Eu ia atrás, frustrado com mais essa demora. Só os passarinhos se regozijavam e gorjeavam com o acréscimo de vida. Ainda bem que o Sol ali nunca acabava.
Finalmente o Tio terminava as tarefas. Os passarinhos voltavam a tremer.
— Vai pegá um frango pa janta – Era minha Vó, DE NOVO! Eu gostava muito da minha Vó, menos nessas horas. Os passarinhos até sorriam morbidamente pela sorte antecipada do penado grandão (na hora da janta eu ia voltar a gostar da minha Vó; que tempero!).
Saímos para a caçada, não antes do meu Tio regar as verduras na horta e varrer a calçada. Pegamos uns cinco passarinhos entre anus, rolinhas, pardais... Meu Tio estava bonzinho naquele dia.
O Sol nunca acabava, a não ser quando chegava a noite, que também era muito longa.

IWD

I have a Theory about women: I think you are ET´s. Yes, you came from another galaxy. In some pre-history moment your spacecraft had to do an emergency landing on our planet because you´ve forgotten to fill the radioative plutonium tank. Once you got out, leader´s wrist computer conclude after some seconds that there was no inteligency life in this planet.
The high council primarily installed decided to organize some expeditions to recognize our climate, plants and animals because you were hopeless to go back home. An advanced group some miles away were surprised with a scene of some hairy corpses animals who were executing a kind of ritual. Males eating their females (literally!). You discovered later that males did so because they didn´t know what better do with his females. The problem for exotic animals was that females were up to be extinguished.
So your leader have an idea: "bodies of this animals when shaved looks like miniatures of our males and our scientists discovered a compatible genetics". Then she pronounce the famous historical phrase: "who doesn´t have dog hunts with cat".
So your ancestrals decided for substituting the females of that kind (that they solved to call "Men"). Not before teaching them some civilized practices. Men enjoy a lot!
Another decision you´ve taken then was to pretend you were so stupid as females you substitute ("but we´ll take care of children education or future generation of women will never can go back to our beautiful planet").
An strange thing started at that time. You began to bleed once a month (I believe this was caused by a kind of allien "banzo")


(for a special friend)

domingo, 3 de junho de 2007

Admirável mundo novo

Não sei se estou usando este espaço para exorcisar meus fantasmas ou para alimentá-los. Seja o que for, o pavor é o mesmo.
Quero algo mais do que este universo kafkiano. Universo alvariano, de sensações não de talento como o daquele.
Curiosa a natureza das sensações; são todas manifestações bioeletroquímicas, mas as boas sensações são fugidias. Com freqüência vão embora e jamais retornam. As más são perenes e até parecem se fortalecer com o passar dos anos. Talvez ambas sejam esgotáveis, mas a semelhança das comidas que nossas mães nos dão quando crianças preferimos algumas e desprezamos outras e assim as preferidas vão se acabar antes. Talvez seja isso; não há más ou boas sensações, apenas assumimos nossas prediletas. A maioria prefere os chocolates mas a sopa de chuchus também é necessária (tem que ser!). Algumas religiões apontam o caminho da felicidade passando pela dor. E há quem se sinta feliz fazendo abdominais e musculação. Tem gente que torce para o Corinthians. Os folhetins televisivos nos conduzem por meses de sofrimento para um único capítulo de felicidade e ainda assim os assistimos com avidez.
Acho então que vou encher este blog de dor e angústia. Assim todo mundo vai querer ler.
Saudações Mundo!