sábado, 23 de junho de 2007

Primeiro Amor

R. era a menina mais sem graça da turma, a mesma turma desde o primeiro ano. Tinha aqueles óculos grossos e nunca se destacava em nada. Estudamos quatro anos juntos e não me lembro de ter conversado com ela uma vez sequer, embora conversar jamais tenha sido o meu forte. Na quinta série fui estudar à noite, eu era dois anos mais velho que a média dos demais, e a minha antiga turma continuou de manhã. Perdi o contato com todos.

Fui à procissão de Corpus Christi daquele ano, a contra-gosto; minha mãe era enfronhada nas coisas da igreja e eu já era comunistinha e ateuzinho; não, só ateuzinho; vivíamos ainda sob a ditadura militar e um menino comum de 12 anos não poderia se alinhar com aqueles comedores de criancinhas; era isso que se dizia deles.
Tinha algo bacana no dia de Corpus Christi: os enfeites nas ruas. Mais tarde eu próprio ajudaria algumas vezes. Mas naquele ano algo me chamou mais a atenção. À frente da procissão iam uns anjinhos, meninos e meninas. Uma das meninas era R..

Também por conta da ditadura a exposição de corpos femininos na TV não existia naquela época, e a revista Homem (depois virou Playboy) tinha as capas lacradas nas bancas. A única manifestação erótica que no permitiam ver eram os falsos e comportados beijos das novelas, que mesmo assim me deixavam ruborizado na presença dos familiares e das visitas, muito constantes naqueles tempos. Educação sexual dentro das famílias não existia e nas escolas mal se esboçava. Essa situação parece não ter mudado grande coisa until now.
Nem todos os meninos eram tão abestalhados. Alguns falavam de coisas que eu nem imaginava.
Nem deveria estar falando de erotismo por mim mesmo. Falo aqui porque uma psicóloga amiga minha afirma que todas os desejos românticos são manifestações eróticas. Nunca que eu por mim mesmo imaginaria naqueles tempos que o príncipe encantado só pensasse naquilo com a Branca de Neve (muito menos os sete anões). E ainda hoje tendo a discordar da minha amiga; mas isso eu guardo só pra mim.

O que eu senti naquela quinta-feira de Corpus Christi, não me lembra erotismo; relacionaria melhor com êxtase místico, comparando com relatos de beatos históricos. A sensação de expansão do ser, o coração acelerado, o desligamento do resto do mundo. Prazer. Indescritível!

A procissão acabava na igreja. No altar estavam perfilados os anjos e anjas. E R. eu posso jurar que brilhava. Cabelos negros compridos, rosto perfeito, olhos de pureza celestial, não mais encobertos pelos óculos, corpo honestamente moldado pelos hormônios (isso eu só fui ver depois, sem a fantasia, em outras missas).
Nunca tinha conversado com ela antes e tampouco conversei depois. Ela jamais soube o que causou em mim. Ninguém soube. É a primeira vez que exponho essa estória. R., vi-a depois nada angelical namorando outros rapazes, mas então eu também já tinha nova paixão, embora igualmente platônica. Desta, duradoura que tenha sido não sei se vale a pena contar, a não ser que C., sabendo dos meus sentimentos (por terceiros), me dava alguns encontrões na hora do recreio. Só mais tarde fui me dar conta que foram de propósito (eu era bem mais tapado que agora).

O tempo passou, C. se apaixonou por um vizinho meu e eu fui estudar numa escola onde só tinha meninos (não me apaixonei por ninguém de lá, viu?). No adulto, outros sentimentos nasceram e morreram; sempre muito fortes, mas tinham outra natureza. Na certa falarei deles em outras ocasiões.

2 comentários :

Di disse...

Também me lembro da minha primeira paixão. Estava no pré ainda, eu tinha 3 ou 4 anos. Lembro-me que todas as vezes que levantava para buscar algo com a professora, passava pela mesa do garoto, agarrava-o e dava-lhe um beijo na bochecha. Ele odiava! Era algo como o Bobby, do desenho Fantástico mundo de Bobby e a amiguinha dele.
Será que o pobre coitado ainda se lembra disso? Espero que não o tenha deixado traumatizado.

Alvaro Vianna disse...

Traumatizado? Só se foi pelo que perdeu.
Poxa, meninas começam cedo...!