Perdoem-nos, crianças, o mundo horrível que demos a vocês.
Crianças são o nosso perdão nessa instância penitenciária que chamamos de vida.
Há quem diga que uma criança que morre vira anjo.
Não, Wellington, eu não queria que você tivesse morrido criança.
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Black friday
"O horror não foram as chamas. O lixo dos pensamentos transformados em realidade é que era o gozo do demônio. Era a humanidade sem os filtros da educação e do condicionamento. Como já o era o Senhor dos infernos. Não um pesadelo interminável, mas um tempo em que seria preferível o pior de todos os pesadelos. Nada de estrelas caindo, mas paisagens áridas e extremamente brilhantes. Não o medo do que se esconde no escuro; ao contrário, era a obrigação de se ver tudo. E se fazer tudo. A dor nem era tanta a do corpo. Mas nos outros corpos. Nos dos inocentes que se viram sem céu. Crianças atiradas pelas janelas por seus próprios pais. Ou..."
Chega. Escrevi isso ouvindo "Black Sabbath", a faixa que tem o mesmo nome da antológica banda inglesa. Achei inocente a letra, desproporcional à impressão causada pelos graves de baixo e base, além da incrível voz do Ozzi. A evolução dos tempos trouxe também uma evolução do horror. Ou talvez da nossa capacidade de descrevê-lo. Pode ser que a absurda exposição que cada notícia tétrica alcança, exija que da próxima vez se produza algo mais pesado a fim de se conseguir o mesmo impacto. Derrubar as maiores torres do mundo seria algo impensável para terroristas de 1969, ano da gravação de Black Sabbath. Cidade de Deus, o filme, também mostra uma evolução do horror assim, concordam?
Desculpem. A sexta nem está tão black como pode parecer. Mas é muito black pensar que não vai melhorar.
Chega. Escrevi isso ouvindo "Black Sabbath", a faixa que tem o mesmo nome da antológica banda inglesa. Achei inocente a letra, desproporcional à impressão causada pelos graves de baixo e base, além da incrível voz do Ozzi. A evolução dos tempos trouxe também uma evolução do horror. Ou talvez da nossa capacidade de descrevê-lo. Pode ser que a absurda exposição que cada notícia tétrica alcança, exija que da próxima vez se produza algo mais pesado a fim de se conseguir o mesmo impacto. Derrubar as maiores torres do mundo seria algo impensável para terroristas de 1969, ano da gravação de Black Sabbath. Cidade de Deus, o filme, também mostra uma evolução do horror assim, concordam?
Desculpem. A sexta nem está tão black como pode parecer. Mas é muito black pensar que não vai melhorar.
quinta-feira, 17 de março de 2011
A bolha
Era uma bolha. De sabão. Tensão superficial incomum. Era um dedo. Comum. Um dedo como outro qualquer. Que tentava estourar. A bolha. Colorida. Enorme pelo que tinha de desconhecido. Pelas promessas. Pinhata.
Está ainda inteira. Só que sem cor. Talvez até menos esférica. Menor. Bem menor. Esquiva igual. O dedo. Um dia ainda acerta o ângulo de incidência. Razão de ser de todo dedo que se preze.
Está ainda inteira. Só que sem cor. Talvez até menos esférica. Menor. Bem menor. Esquiva igual. O dedo. Um dia ainda acerta o ângulo de incidência. Razão de ser de todo dedo que se preze.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Reflexões de um ateu quando está à toa
Perdoem-me as amigas Veronika, Michele e Natália, (e outros amigos que professem alguma crença). Mas sei que as três respeitam a liberdade de pensamento. E que pensam; e muito bem, sobretudo. Gostaria antes de deixar claro que meu problema não é exatamente com a existência de Deus, mas com as diversas versões de Deus de tantas religíões e com a fragilidade argumentativa. Outro dia, falava com um pastor que antes de tentar convencer os descrentes, os religiosos deveriam tentar chegar a um consenso entre si. Bobagem, claro. A menos que as tecnologias de informação globais provoquem num futuro distante alguma equalização, como de resto pode acontecer com diversos pontos culturais, como língua, moda e organização social. Na política, os recentes levantes populares contra ditaduras antigas, na África e na Ásia, já parecem apontar para a disseminação de modelos que aparentem ser mais aperfeiçoados; no caso, o democrático.
Pois, então, não tenho necessidade de afirmar descrença em Deus. O "ateu" é só para facilitar as coisas. Apenas uso a Lex Parsimoniae: "entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade)*. Ocorre frequentemente entre os religiosos justificarem a existência de Deus pela complexidade das coisas e sobretudo das coisas vivas. Concordo que sejam assombrosos os funcionamentos, que ainda não os conhecemos de todo, desde estruturas atômicas e seus zumbis quânticos, passando pela infinidade de massa e energia em movimento espaço adentro e chegando ao abismal desenvolvimento do cérebro humano. Só que dar a Deus o crédito para a criação disso tudo significa acrescentar complexidade de ingredientes não estimável a essa já farta e suculenta sopa cósmica.
Há indícios de vida nesse planeta em data tão longíqua quanto 3,6 bilhões de anos. Tempo absurdamente extenso para que o acaso produza suas modificações nas estruturas vivas, a fazer algumas sucumbirem enquanto outras se fortalecem no sentido de postergarem sua permanência como espécie. Repito, não é desacreditar de uma entidade criadora, é tão somente aceitar as explicações mais simples e que estejam em consonância com as observações.
Também gostaria de acreditar em um Paraíso post mortem, onde a felicidade fosse possível e eterna. Eu já me contentaria com algumas horas. E nem precisaria do Paraíso. Na Brasilândia ou no Campo Limpo já estaria de bom tamanho. Mas as observações mostram apenas corpos que se decompõem; há 2 ou 3 milhões de anos, se contarmos apenas os humanóides. Essa é a imagem que eu tenho da felicidade: longa e indolor decomposição do corpo. Depois a eterna viagem de nossas partículas, para outras vidas, outras galáxias ou universos inteiros.
*citação em latim é muito pedante
Pois, então, não tenho necessidade de afirmar descrença em Deus. O "ateu" é só para facilitar as coisas. Apenas uso a Lex Parsimoniae: "entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade)*. Ocorre frequentemente entre os religiosos justificarem a existência de Deus pela complexidade das coisas e sobretudo das coisas vivas. Concordo que sejam assombrosos os funcionamentos, que ainda não os conhecemos de todo, desde estruturas atômicas e seus zumbis quânticos, passando pela infinidade de massa e energia em movimento espaço adentro e chegando ao abismal desenvolvimento do cérebro humano. Só que dar a Deus o crédito para a criação disso tudo significa acrescentar complexidade de ingredientes não estimável a essa já farta e suculenta sopa cósmica.
Há indícios de vida nesse planeta em data tão longíqua quanto 3,6 bilhões de anos. Tempo absurdamente extenso para que o acaso produza suas modificações nas estruturas vivas, a fazer algumas sucumbirem enquanto outras se fortalecem no sentido de postergarem sua permanência como espécie. Repito, não é desacreditar de uma entidade criadora, é tão somente aceitar as explicações mais simples e que estejam em consonância com as observações.
Também gostaria de acreditar em um Paraíso post mortem, onde a felicidade fosse possível e eterna. Eu já me contentaria com algumas horas. E nem precisaria do Paraíso. Na Brasilândia ou no Campo Limpo já estaria de bom tamanho. Mas as observações mostram apenas corpos que se decompõem; há 2 ou 3 milhões de anos, se contarmos apenas os humanóides. Essa é a imagem que eu tenho da felicidade: longa e indolor decomposição do corpo. Depois a eterna viagem de nossas partículas, para outras vidas, outras galáxias ou universos inteiros.
*citação em latim é muito pedante
terça-feira, 8 de março de 2011
Às porta-bandeiras de lutas!
Deviantart
Tem algo em que esse blog é definitivo: em sua admiração pelo feminino desse mundo; à mulher que deu à luz o homem arrogante, dominador, belicista, destruidor de belezas, mas que o está recriando em moldes mais apreciáveis, carinhosa e obstinadamente.
Parabéns às mulheres que estão a nos ensinar o verdadeiro significado da palavra luta. E por nos mostrar, aos homens, que o nosso verdadeiro lugar é ao lado.
Num país que soube eleger uma mulher tão valorosa ao seu posto mais importante, esse dia 8 é ainda mais especial.
Um grande beijo a todas. Particularmente às queridas seguidoras desse blog, sempre tão amáveis em seus comentários.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Cio da terra (to live is to die)
Hoje, ouvindo Chico, emocionei. Coisa rara, nestes tempos. Quase nada brota. Esterco não falta. Falta o resto. Sementes boas. Sementes que não sejam mortas por predadores antes mesmo do plantio. A grande arte, a poesia, a emoção são as flores mais belas do jardim da existência. De onde vêm, ervas daninhas? De que inferno vêm estes diabos?
Em seguida, fui ouvir Metallica. Porque o mundo que tem o chuvisco que ressalta o verde também tem trovões e relâmpagos, nas tempestades. E não é que daria para somar o cio e a morte? Se eu soubesse música. Meio Chico Science. Eu queria muito mais que aquilo, contudo. Artista sem dom que sou, não será possível. Mas eu garanto que ficaria muito bom.
Nascimento e morte na extensão de uma canção. Na relatividade einsteniana, curto e comprido podem ser a mesma coisa. Tudo depende do referencial. Ou da paciência de se ouvir.
A poesia brota; jovens egípcios vão à praça ajudar a parir a liberdade; em outros jovens a idiotice abbbunda; o morro cai sobre as nossas cabeças. O fim das vozes no meu rádio.
Quero uma chance de tentar viver com dor, mas também com algum sabor.
Em seguida, fui ouvir Metallica. Porque o mundo que tem o chuvisco que ressalta o verde também tem trovões e relâmpagos, nas tempestades. E não é que daria para somar o cio e a morte? Se eu soubesse música. Meio Chico Science. Eu queria muito mais que aquilo, contudo. Artista sem dom que sou, não será possível. Mas eu garanto que ficaria muito bom.
Nascimento e morte na extensão de uma canção. Na relatividade einsteniana, curto e comprido podem ser a mesma coisa. Tudo depende do referencial. Ou da paciência de se ouvir.
A poesia brota; jovens egípcios vão à praça ajudar a parir a liberdade; em outros jovens a idiotice abbbunda; o morro cai sobre as nossas cabeças. O fim das vozes no meu rádio.
Quero uma chance de tentar viver com dor, mas também com algum sabor.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
A dança das formigas
Hoje percebo - são necessários ritos para vir ao mundo, passar pelas portas do nascimento, passar pela infância, da puberdade à idade madura. Cada passagem exige seus rituais de iniciação, abrir caminhos, conjurar o medo e depositar-nos na outra margem com plenitude e alegria, com dor quando necessário, mas com grandeza.
Cada hora - a da separação, do reencontro, da morte e do nascimento, deve ser vivida inteira. Grávida de sentido. Pois cada momento se marcado de existência faz com que o cotidiano em vez de desperdiçado sob o véu azul [do céu] e logo rasgado pelas ilusões desfeitas, será vivido em mais modestas cores, mas com toda a grandeza da simplicidade. Cheio de grave e único sentido que cada momento nos coloca. Então, só então não haverá mais profano.
Pois eis que tudo é sagrado. Com todo cuidado, meu amor...
----
Tucandeira, a dança das formigas - é de longe, entre os rituais indígenas de iniciação um dos que mais se destaca da tribo Sateré-Mawé. Trata-se de uma cerimônia ligada à iniciação masculina: quem consegue superá-la pode ser admitido na comunidade dos adultos. A dança rítmica começa com os cantos e vai até o momento em que se tem certeza absoluta de que o candidato cumpriu a prova, demonstrando toda sua coragem.
Cada hora - a da separação, do reencontro, da morte e do nascimento, deve ser vivida inteira. Grávida de sentido. Pois cada momento se marcado de existência faz com que o cotidiano em vez de desperdiçado sob o véu azul [do céu] e logo rasgado pelas ilusões desfeitas, será vivido em mais modestas cores, mas com toda a grandeza da simplicidade. Cheio de grave e único sentido que cada momento nos coloca. Então, só então não haverá mais profano.
Pois eis que tudo é sagrado. Com todo cuidado, meu amor...
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Tucandeira, a dança das formigas - é de longe, entre os rituais indígenas de iniciação um dos que mais se destaca da tribo Sateré-Mawé. Trata-se de uma cerimônia ligada à iniciação masculina: quem consegue superá-la pode ser admitido na comunidade dos adultos. A dança rítmica começa com os cantos e vai até o momento em que se tem certeza absoluta de que o candidato cumpriu a prova, demonstrando toda sua coragem.
Reproduzido do blog Colorindo os Modos, da minha grande amiga Vã
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
O que poderia acontecer de diferente, hoje?
Fico surpreso por se aspirar à eternidade quando tantos sequer dão conta do infinitésimo que vivem. Mais tempo de vida é mais tempo para se perder crenças (ou ilusões, se prefere). E sabores; principalmente aqueles que só se pode imaginar; que nunca, nunca mesmo, se vão tornar reais.
O conhecimento é a pior das torturas. Sobretudo reconhecer que a consciência é um câncer da vida, uma anomalia. Daí que toda poesia e toda arte, toda ideologia e toda religião não passam de paliativos. Hedonistas até podem abrir mão destes remédios. Mas o prazer não é bem universal - longe disso - , nem sustentável, como se percebe.
Política e ciência são produções intelectuais menores, mas não criam ou repercutem ilusões. Mantém a vida extra-biologicamente. E nesse sentido criam bases para as grandes utopias. Servem bem também àqueles para quem ter equipamentos de alta tecnologia e luxos industrializados é o que vale a vida.
Querer dividir com alguém especial essa estupefação que é o viver é apenas a maior e mais dolorosa das ilusões.
.
O conhecimento é a pior das torturas. Sobretudo reconhecer que a consciência é um câncer da vida, uma anomalia. Daí que toda poesia e toda arte, toda ideologia e toda religião não passam de paliativos. Hedonistas até podem abrir mão destes remédios. Mas o prazer não é bem universal - longe disso - , nem sustentável, como se percebe.
Política e ciência são produções intelectuais menores, mas não criam ou repercutem ilusões. Mantém a vida extra-biologicamente. E nesse sentido criam bases para as grandes utopias. Servem bem também àqueles para quem ter equipamentos de alta tecnologia e luxos industrializados é o que vale a vida.
Querer dividir com alguém especial essa estupefação que é o viver é apenas a maior e mais dolorosa das ilusões.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
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