Pois, então, não tenho necessidade de afirmar descrença em Deus. O "ateu" é só para facilitar as coisas. Apenas uso a Lex Parsimoniae: "entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade)*. Ocorre frequentemente entre os religiosos justificarem a existência de Deus pela complexidade das coisas e sobretudo das coisas vivas. Concordo que sejam assombrosos os funcionamentos, que ainda não os conhecemos de todo, desde estruturas atômicas e seus zumbis quânticos, passando pela infinidade de massa e energia em movimento espaço adentro e chegando ao abismal desenvolvimento do cérebro humano. Só que dar a Deus o crédito para a criação disso tudo significa acrescentar complexidade de ingredientes não estimável a essa já farta e suculenta sopa cósmica.
Há indícios de vida nesse planeta em data tão longíqua quanto 3,6 bilhões de anos. Tempo absurdamente extenso para que o acaso produza suas modificações nas estruturas vivas, a fazer algumas sucumbirem enquanto outras se fortalecem no sentido de postergarem sua permanência como espécie. Repito, não é desacreditar de uma entidade criadora, é tão somente aceitar as explicações mais simples e que estejam em consonância com as observações.
Também gostaria de acreditar em um Paraíso post mortem, onde a felicidade fosse possível e eterna. Eu já me contentaria com algumas horas. E nem precisaria do Paraíso. Na Brasilândia ou no Campo Limpo já estaria de bom tamanho. Mas as observações mostram apenas corpos que se decompõem; há 2 ou 3 milhões de anos, se contarmos apenas os humanóides. Essa é a imagem que eu tenho da felicidade: longa e indolor decomposição do corpo. Depois a eterna viagem de nossas partículas, para outras vidas, outras galáxias ou universos inteiros.
*citação em latim é muito pedante
2 comentários :
“- Os cavalos se arranjam, diz meu pai. Mas o deus é um animal doméstico.
- O deus? – pergunto.
- O deus, sim. Snorre Sturlson não definia esse deus e eu nem penso em saber mais do que ele. (...) Nosso deus é o que resta, quando enumeramos todos os outros e dizemos: não, não é ele, não é ele.”
A estação atômica, Halldor Laxness, escritor islandês (tradução Maria Jacintha)
Não acredito em nada que me limite. Em nada que não acredite em mim. Lembra? Deus sou eu! Deus sou eu! rs
Abraço
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