segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal

Certa vez numa Missa do Galo em que eu participava soltou-se propositalmente uma pomba branca dentro do templo. Havia a lotação completa, o que pode parecer estranho a quem não é do mundo religioso católico, já que essas missas costumam avançar até 10 ou 11 horas na noite de Natal. E o estranho, na verdade, são os costumes seculares que compraram literalmente o Natal e reinventaram o sentido da data. Nada mais coerente que a comemoração do nascimento de Cristo em comunidade.
Pois que naquela missa a pomba branca, certamente assustada, deu várias voltas dentro da nave e aí resolveu pousar. E escolheu o lado direito da grande cruz do altar, para vibração da assistência.
Não acredito em milagres e perdi de todo a fé em qualquer ser transcendente e tanto mais nas religiões, mas tenho fé nos propósitos coletivos. Acho bonito acreditar que o desejo de toda aquela gente, o inconsciente coletivo, direcionou aquela pequena ave para aquele lugar. Assim também penso que o Natal, independentemente de místicas, é época em que muitas mentes juntas desejam coisas boas para toda a humanidade. Quero crer que essa força do coletivo seja poderosa; como uma grande torcida para o time do bem.
Desejo a todos que visitam este blog muitos gols de paz, entendimento, de fim da violência, de participação na vida do país e do planeta; de fim da corrupção e que possamos eleger em 2010 mais representantes dignos.
Faço um convite para um grande abraço coletivo, mesmo que virtual.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Noite de águas e escuridão

Chovia tanto quando chegou ao centro da cidade que quase competia com as tempestades internas dele. Aquele lugar da Metrópole ficava ainda mais feio no abandono de uma noite de sábado. O lixo não recolhido que se misturava à enxurrada e o lixo humano querendo se desmisturar de tudo. Um morador de rua se postou junto dele sob aquele abrigo, a marquise de um dos muitos prédios velhos daquela região. Mesmo com sua melhor roupa e seu melhor perfume, não se sentiu melhor vestido nem mais cheiroso. Pensou que cruzadas as portas do submundo ninguém seria melhor que ninguém. E era o que ele queria. Especialmente, não queria ser melhor do que ela. Ia descer ao esgoto por amor.
A chuva diminuiu, podia sair dali. Pensou em desistir; voltar para casa. Mas como poderia suportar aquela dor se não fosse adiante com seus planos? Como desistir? Logo ele, o mais impulsivo dos homens. Seguiu, então, rumo a região boêmia. Nas calçadas, apesar da chuva e do pouco movimento, já se encontravam várias prostitutas. Algumas envelhecidas, outras com as carnes caindo da pouca roupa. Mas numa das portas estava Talita - o nome só perguntaria mais tarde. Era uma jovem bonita e se trajava discretamente. Ela o chamou, como chamava a todo homem desacompanhado que por ali passasse. Facilitou para ele, que por si mesmo não teria tido a coragem de fazer a abordagem. Nunca tivera, nem jamais precisara. Perguntou o preço. Era um pouco mais do que ele tinha no bolso. Tentou negociar - que humilhante, pensou consigo. Ela recusou a oferta, mas voltou atrás quando ele fez que ia embora.
Subiram a escadaria apertada daquele hotelzinho decadente. No primeiro pavimento havia um guichê; o caixa onde se deveria fazer o pagamento adiantado. Achou engraçado terem até maquininha de cartão de crédito naquele pardieiro. A moça o encaminhou para um quarto. Tinha uma goteira, e sob ela um balde para contê-la. O banheiro não tinha porta. Quando saiu de lá a moça já estava nua. E o apressou porque teriam pouco tempo. Ele pensou um pouco e não quis se despir. Pediu carinho. Ela estranhou. Mas se prestou a fazer movimentos mecânicos e pouco voluntariosos com a mão sobre o peito dele. Quis saber se ele tivera alguma desilusão amorosa. Ele contou. Pediu um beijo. Ela disse que nunca beijava. Aí ele entendeu o fracasso de seu plano. Não ia conseguir o amor dela. Aquilo não era um filme romântico, mas uma realidade de horror.
Passaram-se alguns minutos e ele pensou: já cheguei até aqui; não tinha mais sentido que o meu corpo fosse só da outra. E quis ir até o fim. E foi. E se virou de lado. E chorou quieto.
De volta à rua correu para o telefone público. Ligou para ela, a mulher que não conseguira deixar de amar. Ela disse alô. Ele contou tudo e de toda dor que sentia. Ela não respondeu nada. Nem se podia ouvir sua respiração. Apenas desligou o aparelho. Era a primeira vez que ela fazia isso em toda uma vida.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A vida é melhor com uma companhia

O título é frase de uma velhinha que ouvi em um episódio de Raising the Bar - seriado sobre advogados e tribunais. Enquanto assistia, pensava que toda a evolução filosófica é inútil. A cada geração temos que reaprender tudo, com todas as dores inerentes. Senhor Nietzche, foi a filosofia que morreu. Deus nunca existiu.
Escrevi este pequeno post porque advogados são maioria entre meus poucos mas seletíssimos leitores. E não se preocupem se as coisas parecem desconexas. As colas estão em poucas cabeças.

BTW: a velhinha morre no final.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Orgulho



Viveu só. E morreu só. Para nunca ter que ouvir de uma mulher: eu não amo mais você.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Novo Layout

Homenagem a uma pessoa bonita, inteligente, criativa, brigadora, romântica rebelde, moleca... amiga.

Dantesco

De resto, é esperar que no inferno os condenados se juntem para dividir as dores.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Infância (reedição)

Caçar passarinho era uma das muitas diversões da vida no interior. Roça mesmo. Com plantações no lugar das casas, do asfalto e das gentes apressadas. Com ar sujo da poeira da invernada em lugar do monóxido de carbono. Com um silêncio monótono sem os tic-tacs dos muitos relógios das cidades. Desnecessários, já que o tempo ali não passava.
— O Tio vai demorar, Vó?
O Tio era o companheiro das caçadas. Pobres passarinhos. Já os via com as almas mais penadas que os corpos em vida. Mas como demorava o Tio! A cada barulho de trator... — Agora são eles, Vó! "Eles" eram o Vô, os outros tios e mais o Tio.
Chegavam imundos, roupas cheias de remendos, parecidas com as das quadrilhas de São João. Chapelões; nada parecidos com os dos heróis dos filmes.
Mas o meu Tio era o meu herói. Forte como um boi. Era capaz de atirar uma pedra do tamanho de uma laranja, e às vezes a própria, a mais de cem metros. E com boa pontaria!
— Vamos caçar passarinhos, Tio?
— Nada disso! Tem que apartá os bezerro e levá a lavage dos porco! – Era a Vó que gritava da cozinha. O Tio saía contrariado, resmungando. Eu ia atrás, frustrado com mais essa demora. Só os passarinhos se regozijavam e gorjeavam com o acréscimo de vida. Ainda bem que o Sol ali nunca acabava.
Finalmente o Tio terminava as tarefas. Os passarinhos voltavam a tremer.
— Vai pegá um frango pa janta – Era minha Vó, DE NOVO! Eu gostava muito da minha Vó, menos nessas horas. Os passarinhos até sorriam morbidamente pela sorte antecipada do penado grandão (na hora da janta eu ia voltar a gostar da minha Vó; que tempero!).
Saímos para a caçada, não antes do meu Tio regar as verduras na horta e varrer a calçada. Pegamos uns cinco passarinhos entre anus, rolinhas, pardais... Meu Tio estava bonzinho naquele dia.
O Sol nunca acabava, a não ser quando chegava a noite, que também era muito longa.




(A prática de caçar passarinhos já foi há muito abandonada por aquelas bandas; ao menos pelo meu tio e os vários amigos daqueles tempos agora homens ecologicamente corretos).