Chovia tanto quando chegou ao centro da cidade que quase competia com as tempestades internas dele. Aquele lugar da Metrópole ficava ainda mais feio no abandono de uma noite de sábado. O lixo não recolhido que se misturava à enxurrada e o lixo humano querendo se desmisturar de tudo. Um morador de rua se postou junto dele sob aquele abrigo, a marquise de um dos muitos prédios velhos daquela região. Mesmo com sua melhor roupa e seu melhor perfume, não se sentiu melhor vestido nem mais cheiroso. Pensou que cruzadas as portas do submundo ninguém seria melhor que ninguém. E era o que ele queria. Especialmente, não queria ser melhor do que ela. Ia descer ao esgoto por amor.
A chuva diminuiu, podia sair dali. Pensou em desistir; voltar para casa. Mas como poderia suportar aquela dor se não fosse adiante com seus planos? Como desistir? Logo ele, o mais impulsivo dos homens. Seguiu, então, rumo a região boêmia. Nas calçadas, apesar da chuva e do pouco movimento, já se encontravam várias prostitutas. Algumas envelhecidas, outras com as carnes caindo da pouca roupa. Mas numa das portas estava Talita - o nome só perguntaria mais tarde. Era uma jovem bonita e se trajava discretamente. Ela o chamou, como chamava a todo homem desacompanhado que por ali passasse. Facilitou para ele, que por si mesmo não teria tido a coragem de fazer a abordagem. Nunca tivera, nem jamais precisara. Perguntou o preço. Era um pouco mais do que ele tinha no bolso. Tentou negociar - que humilhante, pensou consigo. Ela recusou a oferta, mas voltou atrás quando ele fez que ia embora.
Subiram a escadaria apertada daquele hotelzinho decadente. No primeiro pavimento havia um guichê; o caixa onde se deveria fazer o pagamento adiantado. Achou engraçado terem até maquininha de cartão de crédito naquele pardieiro. A moça o encaminhou para um quarto. Tinha uma goteira, e sob ela um balde para contê-la. O banheiro não tinha porta. Quando saiu de lá a moça já estava nua. E o apressou porque teriam pouco tempo. Ele pensou um pouco e não quis se despir. Pediu carinho. Ela estranhou. Mas se prestou a fazer movimentos mecânicos e pouco voluntariosos com a mão sobre o peito dele. Quis saber se ele tivera alguma desilusão amorosa. Ele contou. Pediu um beijo. Ela disse que nunca beijava. Aí ele entendeu o fracasso de seu plano. Não ia conseguir o amor dela. Aquilo não era um filme romântico, mas uma realidade de horror.
Passaram-se alguns minutos e ele pensou: já cheguei até aqui; não tinha mais sentido que o meu corpo fosse só da outra. E quis ir até o fim. E foi. E se virou de lado. E chorou quieto.
De volta à rua correu para o telefone público. Ligou para ela, a mulher que não conseguira deixar de amar. Ela disse alô. Ele contou tudo e de toda dor que sentia. Ela não respondeu nada. Nem se podia ouvir sua respiração. Apenas desligou o aparelho. Era a primeira vez que ela fazia isso em toda uma vida.
Um comentário :
leio conexões com http://andoape.blogspot.com/2009/11/avalovara.html
sem saber exatamente onde se perdem as paralelas. bj. v.
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