Caçar passarinho era uma das muitas diversões da vida no interior. Roça mesmo. Com plantações no lugar das casas, do asfalto e das gentes apressadas. Com ar sujo da poeira da invernada em lugar do monóxido de carbono. Com um silêncio monótono sem os tic-tacs dos muitos relógios das cidades. Desnecessários, já que o tempo ali não passava.
— O Tio vai demorar, Vó!
O Tio era o companheiro das caçadas. Pobres passarinhos. Já os via com as almas mais penadas que os corpos em vida. Mas como demorava o Tio! A cada barulho de trator... — Agora são eles, Vó! "Eles" eram o Vô, os outros tios e mais o Tio.
Chegavam imundos, roupas cheias de remendos, parecidas com as das quadrilhas de São João. Chapelões; nada parecidos com os dos heróis dos filmes.
Mas o meu Tio era o meu herói. Forte como um touro. Era capaz de atirar uma pedra do tamanho de uma laranja (e às vezes a própria) a mais de cem metros. E com boa pontaria!
— Vamos caçar passarinhos, Tio?
— Nada disso! Tem que apartá os bezerro e levá a lavage dos porco! – Era a Vó que gritava da cozinha. O Tio saía contrariado, resmungando. Eu ia atrás, frustrado com mais essa demora. Só os passarinhos se regozijavam e gorjeavam com o acréscimo de vida. Ainda bem que o Sol ali nunca acabava.
Finalmente o Tio terminava as tarefas. Os passarinhos voltavam a tremer.
— Vai pegá um frango pa janta – Era minha Vó, DE NOVO! Eu gostava muito da minha Vó, menos nessas horas. Os passarinhos até sorriam morbidamente pela sorte antecipada do penado grandão (na hora da janta eu ia voltar a gostar da minha Vó; que tempero!).
Saímos para a caçada, não antes do meu Tio regar as verduras na horta e varrer a calçada. Pegamos uns cinco passarinhos entre anus, rolinhas, pardais... Meu Tio estava bonzinho naquele dia.
O Sol nunca acabava, a não ser quando chegava a noite, que também era muito longa.
4 comentários :
Delicioso o texto Infância!
Apesar de ter vivido uma bem diferente dessa, pois sou "PAULISTANA, MEU!", consegui me reportar ao momento e imaginar a ânsia pela hora da atividade favorita. Quem não foi criança, não vai entender essa expectativa!
Só não me encantei muito com a idéia de caçar passarinhos, pois quando eu era criança, carregava tudo quanto era passarinho doente pra casa, cuidava, cuidava e depois de alguns dias estava aos prantos ao ver o bichinho se erguer, bater suas asas e ir pra vida e eu ficava ali. Mas hoje, acho que essas foram as melhores cenas que eu vivi.
Obrigado, Adriana.
Não tínhamos consciência ecológica na época. A idéia de um mundo esgotável não nos passava pela cabeça. Tudo ali era uma imensidão de verde na terra e azul no céu. E a gente só queria muito viver.
Hoje acho que os pássaros de lá, mesmo não sendo mais caçados, são mais tristes do que os daqueles tempos.
Lembrei dos casos que meu pai conta!!! Meu pai foi um moleque no estilo do Pedro Malazarte!rs!
Meu irmão tinha uma espingarda de chumbindo para matar rolinhas quando íamos para Araçaí, nossa aldeia bucólica, vulgo, roça!
Um dia ele apontou a arma pra única boneca que eu gostava. Eu, tola, fui defender a boneca e levei um tiro de chumbinho na testa, que por sinal, existe até hoje. Quando tirei radiografia por causa da sinusite, adorei dizer por "ornitorrinco", o otorrino (!) que eu havia sido abduzida e colocoram um chip e coisa e tal...
Seu texto foi muito terno, moço!!
Gostei de certas construções como o sol não acaba nunca e alma mais penada do que quando vivos!!hehehe!!!
Sopro de Eves!
Oi Alvavo acho que nesse texto vc falava do meu pai, lendo o mesmo me bateu uma saudades imensa do vô e tambem da vó mesmo nao dendo a conhecido, gostei muito, pois me fez sentir como foi a infancia de meu pai.Um grande abraço.
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