Raul cantou a "metamorfose ambulante". Parece mesmo mais conveniente estarmos ao menos dispostos a encarar mudanças, tanto internas quanto externas. Sem falar que umas podem provocar as outras; e nem sempre será possível identificar o que deu início a quê (será que estou certo um quê tem acento e o outro, não?).
Estes processos não são rápidos e geram muita insegurança. Ao contrário, quando se tem conceitos firmes e constantes sobre as coisas importantes tem-se mais segurança. Nessa minha recente e relativamente longa estada no hospital, conversei com pessoas muito mais do que o habitual; até porque não daria para ficar 43 dias encaramujado num lugar como aquele. É incrível como tanta gente tem tanta certeza de tudo. Será que só o meu mundo está em ebulição?
Já falei aqui de minha arrogância passada e da certeza que tinha do futuro. E já falei também de como quebrei a cara. Nesta semana estes pensamentos me afligem particularmente. É o aniversário da mãe do Gabriel. Mais um ano em que eu não vou cumprimentá-la. Por ela seríamos amigos. E isso para mim só reforça o conceito de leviandade que ela passou a ter desde a separação. Como ser amigo de alguém que me abandonou justo quando eu mais precisei dela?
Como não quero me sentir involuído e ainda arrogante, tento mastigar a situação para ver se não estou errado em manter este rompimento; que em última análise pode ser ruim para o meu filho. Mas não consigo. Sei que não fui um bom marido, mas fui sempre muito leal. E ao final teria feito qualquer coisa para manter o casamento. Qualquer coisa!
Mas como a vida continua, tenho que repensar os conceitos gerais em relação a relacionamentos. Para mim, a pedra fudamental de uma relação era a fidelidade. Ou, como se conceitua socialmente, os nossos sentimentos e os nossos corpos sendo exclusivos um do outro. Tudo o mais pode ser feito em relações não conjugais. Nada impede que amigos, ou apenas sócios, comprem imóveis que pertençam aos dois (ou mais). Seria estranho, mas até mesmo filhos poderiam ser criados por duas ou mais pessoas sem nenhum vínculo conjugal.
Bem! mas e se as pessoas quisessem um vínculo conjugal sem o compromisso de fidelidade? É viável uma relação assim? Com que propósitos? "Ah é mesmo, hoje é o seu dia de namorar com Fulano; então vou alugar um DVD. Quando você volta?". E se há filhos: "hoje seu pai (ou sua mãe) precisa estar com a outra família...". São as situações que se apresentam; ao menos teoricamente. Embora muitas pessoas (a maioria talvez) ainda estejam presas aos conceitos antigos, o que se vê na prática é uma impossibilidade de se manter aquele nível de fidelidade.
Tudo bem, o novo sempre assusta. Mas e quando esse novo não apresenta ainda uma estrutura testada e portanto confiável? Quem pode dizer que estes novos modelos de relacionamento são saudáveis? O modelo antigo também não era? Quem pode afirmar que o problema era do modelo e não de uma formação individual distorcida?
Estatisticamente pensando não dá para falar bem do modelo fidelizante. A grande maioria dos casais que conheci vida afora foram ou são desastrosos. Mas também tenho que admitir que a maioria dos indivíduos são desastrosos independentemente dos relacionamentos que tenham. E não quero dizer que sejam pessoas ruins. Apenas que não têm formação suficientemente evoluída para o que quer que venham a fazer. Se forem padres, serão maus padres; se forem administradores de empresas, serão péssimos; se forem presidentes da República, Deus nos ajude! Sempre pensando, é claro, na capacidade de se relacionarem com outros seres humanos. Competência técnica qualquer robô poderá ter.
Os meus desastres particulares, como indivíduo ou como cônjuge, já entendi um pouco e ainda tento entender por completo. Mas não entendi nada o suficiente para saber como me comportar daqui em diante. Parece tudo muito nebuloso. Mais ainda porque não adianta muito pensar sozinho. Toda relação só terá validade se pensada a dois.
Então acho que não adianta eu ficar me preocupando muito em reconstruir conceitos. Acho que antes seria preciso criar com alguém uma sintonia sobre coisas maiores e só então pensar em algo assim tão específico.
Qual a mudança então? A abertura para o novo.
6 comentários :
Bom, o que eu penso a respeito: cada caso é um caso. Se eu for levar em consideração -partindo do pressuposto que estamos falando agora dos meus fracassos amorosos - que tive um relacionamento intenso, que parecia haver 100% de sintonia, lealdade e amizade, além da quimica estarrecedora, e que esse indivíduo mostrou não valer um centavo, como se diz na linguagem chula, nem como amigo, nem como pessoa, muito menos como amante, teria que achar que todos os outros são assim. Certo? Claro que errado. Apesar que dá um medo danado depois de se entregar (porque nos mostramos nus a alguém que, achamos, realmente nos entendia e amava), as pessoas são diferentes. Até os cachorros têm personalidades diferentes, imagine os seres humanos, dotados de uma inteligência mais elaborada. O que eu penso a respeito é que, de fato, temos que dar novas chances. Ao novo (pois sempre há gostosões e gostosonas por ai), ao novo-eu (pois sempre podemos ficar mais atraentes e inteligentes, só se esforçar) e a vida (pois há um Deus ai, em todos os momentos, dizendo baixinho no nosso ouvido para que continuemos).
Ufa. Deu pano pra manga.
Aceite um expresso duplo, é por conta da casa.
Passando pra deixar um oi. Sobre o assunto, já conversamos a respeito. Agora nos encontraremos por aqui...
Beijos
Obrigado pelo café, Carla; adoro café.
Simone, benvinda a esta quase nova casa.
Nossa, quanta coisa teria a comentar sobre esse teu texto. Resumindo, meio 'bagunçadamente': 1.Sobre a primeira parte do texto, como diria o filósofo, "a pior inimiga da mentira é a convicção", ou algo assim. A maioria das pessoas é tão cheia de verdades absolutas e morre de orgulho disso, quando no fundo essas, geralmente, são as mais equivocadas.
2.Nos relacionamentos, atualmente, está na moda essa coisa de "não acredito em fidelidade, e sim em lealdade"... como assim, e os dois não andam juntos? Não consigo dissociar. Embora eu tenha lido e ouvido muita coisa sobre gente que defende relacionamentos abertos ou quaisquer modelos de relacionamentos heterodoxos, digamos assim, eu tenho certeza que, pra mim, o relacionamento com fidelidade seria o único que funcionaria. Eu não conseguiria ficar assistindo um dvd em casa enquanto meu sedizente marido trepa com outra em outro lugar, e conviver naturalmente com sabendo disso.
3. me identifiquei com partes do teu texto pois passo por um rompimento difícil, de uma relação de mais de 5 anos, intensa e cheia de vaivéns. Recomeçar é muito difícil, e o novo dá muito medo. Mas existe um mundo gigantesco e muito divertido nos esperando para ser desbravado.
Well, agora que eu já escrevi um tratado, aproveito para dizer que voltarei ao blog, gostei. Beijos.
Muito obrigado, Gabriela, será sempre benvinda. Sua opinião, junto com a da Carla e da Simone, que já recebera antes, montaram um painel interessante. Vou avaliar e numa próxima oportunidade em volte a este assunto, vou levá-lo em conta.
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