Era uma manhã mais fria do que seria o esperável para aquele agosto de 1992. Sentado na escadaria da igreja, ele tragava um gole da cachaça tomada ao vizinho que com ele dividira aquele leito improvisado com caixas de papelão. O mal cheiro dele e do amigo já há muito deixara de incomodá-lo, mas sabia que incomodaria as pessoas que viessem acudir à missa matinal; portanto, pôs-se em movimento dirigindo-se a um assento na praça em frente, com o quê ganhou algo que pareceu-lhe um olhar de reprovação do senhor que vendia café quentinho e bolo nas manhãs em que havia ofício naquela igreja.
A praça ainda guardava um amontoado de lixo deixado por uma moçada alegre e barulhenta que na véspera fizera ali algo como uma festa em que pediam a renúncia do presidente da república. Ele ria por dentro de si; achava graça da ingenuidade daquelas crianças ao mesmo tempo em que lhes devotava imenso carinho. Não se pode dizer que recordasse de si próprio duas décadas antes. Difícil crer que lhe restasse algo parecido com memória. Talvez fosse melhor chamar de pesadelos as imagens que lhe acorriam diuturnamente, mês após mês, ano após ano.
Fora casado e tivera uma filha que agora contaria vinte anos. Havia muito que não tinha notícia dela ou da ex-esposa.
Com essa ele conversara pela primeira vez numa manifestação estudantil contra o AI 5. Lembrava-se que teria sido no começo de 69, ela do curso de jornalismo, ele de engenharia. Já se haviam cruzado algumas vezes pelos corredores da universidade, sempre com uma significativa troca de olhares. Ela não era exatamente o padrão de mulher com que ele sonhava, mas tinha uns olhos azuis tão brilhantes que produziam nele um encantamento incomum.
Depois daquele dia, encontraram-se muitas vezes. Em princípio nas reuniões do diretório acadêmico; depois, mais reservadamente em casa de um dos líderes dos estudantes. Traçavam ali pequenas estratégias de luta contra o regime, apesar das notícias de desaparecimento de colegas do movimento. Ele e a amada - que agora já namoravam - foram assumindo papéis de destaque naquela organização. A ponto de certo dia, ao verem tipos estranhos dentro de um carro preto, parado próximo à casa, resolveram fugir pelo telhado e daí ao quintal vizinho. Curioso é que ela era filha de um severo capitão do exército.
Passaram a reunir-se em outro local, mais periférico. Agora já falavam em assaltos a banco que lhes pudessem financiar as atividades.
No entanto, quando aquele casal viu o nome e foto de ambos em cartazes distribuídos pela cidade, acharam que seria melhor fugir para o um lugar remoto. Escolheram uma pequena cidade de Mato Grosso, onde ele tinha uns parentes. Mais importante, preocupavam-se pela criança que viria. A jovem estava grávida.
Viveram assim escondidos por cerca de 8 anos até que o regime decidiu pelo retorno às instituições e anistia aos opositores que tivessem participado de atividade subversiva. Foram tempos difíceis. Ele tinha dificuldade em conseguir e se fixar em algum emprego. Ela é que mantinha o sustento dos três costurando roupas sob encomenda. Não que ele fosse vagabundo, mas nitidamente tinha dificuldades tanto de se relacionar com pessoas como de seguir ordens. Com o tempo as dicussões em família foram se tornando insuportáveis. Ela, embora o amasse muito, não suportava que ele insistentemente recusasse ajuda e ofertas de pessoas que o queriam bem. Quando voltaram para São Paulo, em 84, logo se separaram.
*
Uma rajada de vento trouxe até próximo dele uma folha de jornal. Nela uma grande foto de primeira página ilustrava um comício gigante do dia anterior. Em destaque uma linda menina de rosto pintado em verde e amarelo e cabelos cacheados onde se prendia uma faixa com a inscrição "IMPEACHMENT JÁ".
Verdade que já caíam alguns pingos de chuva, mas a umidade sob os olhos denunciariam um possível choro. Saiu caminhando em busca de um local protegido, que encontrou sob a marquise de uma loja que estava fechada. Ele nem se dera conta de que era domingo. O segundo daquele mês.
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Pra você, Vã. Perdoe-me a fraqueza do texto. Que valha mais o esforço em tê-lo escrito. Definitivamente, ficção não é o meu planalto, já que praias não as temos por estas bandas de Piratininga. Com esse texto também espero encerrar o ciclo "anos de chumbo" e retornar a temas mais palatáveis.
5 comentários :
Se esforçou mas valeu a pena, hein!? Eu aprovo um texto - na minha ignorância crítica, claro - quando consigo visualizar mentalmente os personagens e captar as emoções. Foi assim que me senti lendo o teu, parabéns.
E interessante que ele começa no estilo Jack Kerouac (estou lendo o "On the road" agora).
Um café, expresso!
Muito show esse texto. Parabéns pelo blog...gostei muito de passar por aqui e voltarei outras vezes.
Vou te linkar aos meu favoritos.
Abraços
Hugo
Gosto muito.
Beijos.
Oi Álvaro.
Fiquei lisonjeada quando li seu texto, pra não dizer encantada. Perdi a conta de quantas vezes o li, sou assim desse jeito gosto de pensar, analisar, digerir as informações que chegam a mim [meio contraditório para alguém tão estabanado hehe].
Eu sei que preciso de mais equilíbrio nesse sentido, que mereço um bom puxão de orelha. Imagine que coisa, fazemos algo em homenagem a alguém e esse alguém fica todo blasé. Novamente afirmo que não fiz pouco caso e muito menos por não saber o que dizer, o problema foi não saber como dizer.
Dia desses, um amigo me fez uma pergunta que também me deixou pensativa... ele perguntou se eu fazia idéia do quanto é sério escrever algo [por exemplo num blog] publicamente, nunca tinha pensado em mim como uma formadora de opniao. É claro que não concordo totalmente com meu amigo, acredito que quem escreve tem uma parcela de responsabilidade sim na opniao alheia e é isso que fazemos toda a vez que dizemos/escrevemos o que achamos de algo ou de alguma outra forma deixamos com que os outros saibam o que pensamos sobre diversos assuntos. Acrescenta-se algo ao que a pessoa já tinha nos miolos, por assim diá tinha nos miolos, por assim dizer hehe
Quando conheci seu blog, fiquei fascinada por trocar idéias com alguém que de certa forma foi ‘testemunha ocular’ de momentos tão conturbados do nosso país. Não vou dizer que li todos os textos do ‘definitivo’ [não faz parte do meu feitio me gabar], mas tudo o que li me encantou de forma desconcertante, só tenho uma critica a fazer: devia escrever mais!
Quanto ao texto, como disse, gostei muitíssimo e te acho um terrível dum modesto, escreva mais ficção, sei que se sairá bem =)
Nem preciso dizer que esse é meu preferido agora! >=P
Depois que te conheci:
Li “Nem mesmo todo o oceano” de Alcione Araújo;
Lendo: “A Resistência da mulher à Ditadura Militar no Brasil” – Ana Maria Colling.
Será que esses dados comprovam o que meu amigo disse?
Um beijo bem carinhoso pra voce =)
Oi Vã!
Não achei blasé a sua ausência comentando este post, porque já era uma retribuição ao teu. Além do quê, deixaste vários comentários no período, por aqui.
Mas fico feliz que a minha pequena cultura anos 70-80 tenha tido algum efeito. São ótimas as leituras do Alcione e da Ana Maria.
Já a minha escrita, sem falsa modéstia, é inferior à de todos os que tenho lido de minha lista de blogs. Você, a Simone, a Carla, a Gabriela e a Maria Fernanda, além da VelhaChata, poderão tranquilamente fazer sucesso em projetos mais ambiciosos como escritoras. Nem mencionei os homens porque curiosamente não encontrei ainda ninguém assim tão bom além do Marcelo Cunha, que é profissional (recomendo, também está na lista).
No tempo em que fazia palestras sobre política, adorava quando a platéia era de jovens. Eram muito mais contestadores e faziam inúmeras perguntas, sempre muito pertinentes, ainda que muitas vezes direcionassem a rebeldia natural para atitudes políticas grotescas como o voto para Enéas Carneiro (o 56, lembra?).
Obrigado, Vã, seu retorno tem sido especialmente significativo nesta minha retomada bloguística.
Beijo
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