quinta-feira, 6 de agosto de 2009

What a wonderful world

Escrevi no último texto sobre um assunto que significou muito para mim e para muitos amigos. Mas a grande pergunta é: o que sobrou de tudo aquilo? Globalização, crise mundial, mercado, aquecimento global, terrorismo, novas ameaças nucleares, países emergentes, religiões; dificilmente a pauta de algum noticiário não versará sobre pelo menos um destes itens ou suas derivações. E qual a importância de se estar informado sobre tais coisas?

Informação é poder; seria a resposta pronta mais óbvia. Mas como toda resposta pronta, não é completa. Muito se fala que as novas ferramentas tecnológicas como a Internet provocou uma avalanche de informações e que não necessariamente as pessoas estão melhor informadas por conta disso. Pode ser difícil separar o que realmente importa e ainda ter senso crítico para se entender informação manipulada, omissões propositais, jogo político e até mesmo boa intenção equivocada.

Penso eu, contudo, que o excesso de informação é melhor do que a falta. Lembro que no meu tempo de ensino básico, entre 72 e 79, havia uma matéria chamada Educação Moral e Cívica, onde nos ensinavam os "valores" da República, como a Bandeira, o Brasão, o Hino Nacional, enquanto pessoas eram mortas simplesmente porque desejavam a liberdade de escolha. E nós crianças e jovenzinhos não fazíamos a menor ideia do que acontecia. O máximo que nos permitiam eram cartazes com várias fotos de "terroristas" estampadas nas paredes de prédios públicos. No mais, era o Amaral Neto e o Jornal Nacional mostrando as grandes obras, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra, Itaipu e outros orgulhos dos militares. Era a época do "Brasil, ame-o ou deixe-o", como víamos na TV (em preto e branco, por sinal).

Com a abertura política - lenta e gradual, como se dizia na época - começamos a ter um pouco mais da verdade.

Indignação, revolta, ódio por aquela gente verde-oliva e seus patrões capitalistas, foram os meus melhores sentimentos diante daquelas verdades. Sentimentos mobilizadores; e aí está uma grande diferença para as gerações atuais e o "excesso" de informação: não há esse grande salto entre a treva e a luz que permita o aparecimento de sentimentos como aqueles. Banalização? Talvez. Perigo de apatia e alienação? Não sei. Há sinais preocupantes, sem dúvida. Parece que o valor da vida diminuiu muito. Coisa não natural do ser humano. Qualquer indivíduo quer viver; por muito tempo e com o máximo de felicidade. O que perdeu valor, acho, foi a vida do "outro'. Existe até uma palavra bonitinha para definir este "outro": alteridade. Fui buscar num dos mentores de minha militância, Frei Beto, uma definição para esta palavra:

"É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem" (http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=7063).

Emblemático este outro na cabeça das pessoas no mundo atual. Mais do que a compreensão intelectual, faz-se urgente sua compreensão sentimental. Falo de algo muito maior do que a mobilização conseguida com campanhas do tipo "Criança Esperança", "Teleton" e outras congêneres. Este outro é aquele a quem Jesus disse que deveríamos amar tanto quanto a nós mesmos. Cabe aqui também relembrar ou até mesmo esclarecer o significado de compaixão. E aqui vão as palavras de um outro grande pensador cristão, Leonardo Boff:

"Muitos estranharam que tivesse escrito que "sem compaixão (no sentido budista) não se combate a fome". Por que "no sentido budista"? Sim, porque compaixão, no sentido comum, possui uma conotação despectiva: é ter somente peninha, sentimento que rebaixa o outro, pois nele vê apenas a fome de pão e não também a fome de beleza. Poderíamos entender a com-paixão no sentido do cristianismo originário, sentido altamente positivo, que é ter miseri-cór-dia, vale dizer, um coração (cor) capaz de sentir os míseros e sair de si para socorrê-los. Atitude que a própria palavra com-paixão sugere: ter paixão com o outro, sofrer com ele, alegrar-se com ele, andar o caminho com ele. Mas essa acepção não vingou. Predominou aquela moralista e menor de quem olha de cima para baixo e descarrega uma esmola na mão do sofredor (http://www.leonardoboff.com)."

Embora ache complexo incutir essa atitude compassional no seio da sociedade, não sou pessimista. É bem verdade que a publicidade comercial quase que exclusivamente promove o individualismo, a valorização do “eu” acima de tudo. Afinal de contas, é “eu” quem tem o cartão de crédito. Também não me parece que a maioria das famílias promova tais valores internamente. Citei também dois conhecidos nomes cristãos, fomentadores desses ideais de sociedade, o que não quer dizer que as igrejas sejam promotoras dessa valorização do outro. Pelo contrário; muitas denominações ditas cristãs se fazem notar pelo oferecimento de bens ao indivíduo: curas milagrosas e promessas de melhoria de vida que não sendo coisas ruins, afastam-se da mensagem cristã integral.

O que me faz otimista é a crença no próprio ser humano, cuja bondade nasce feito a flor no pântano. Não em todos; não em muitos. Mas um pouco na maioria e muito em alguns poucos. Suficiente, penso, para não nos destruirmos e nem ao planeta. Cria-se uma consciência ecológica que no fundo será exatamente essa compaixão levada a extremo.

Desenvolvimento sustentado e inclusão social são palavras de ordem. Fim de preconceitos, valorização e aceitação das diferenças já não parecem delírios de idealistas. Bem verdade que nações ainda padecem sob ditaduras, morte e opressão são produzidas em nome de deuses e fome e doenças ainda são desafios gigantes. Mas penso que caminhamos, ainda que lentamente, no sentido de se resolverem estas pendências. Sentido para o qual acredito e desejo que se dirija o tal poder da informação.

8 comentários :

VelhaChata disse...

Nossa... Eu tive Educação Moral e Cívica na escola. E também OSPB, que,se não me engano, é a sigla de Organização Social e Política Brasileira... Gente... Hoje os tempos são realmente outros...

Alvaro Vianna disse...

OSPB também tive. No colegial. E significa isso mesmo que a senhora lembrou, dona VelhaChata.
Obrigado pela visita!

Carla P.S. disse...

Eu gostaria de estudar mais isso na história, que tanto me interessa. Mas do pouco que sei, das aulas e pré-vestibulares, vemos agora o inverno: a banalização do poder e a libertinagem. O próximo passo, espera será o meio-termo, a fins empíricos.
Um café, vou ver se encontro o filme amanhã.

Alvaro Vianna disse...

Também preferiria, Carla, conhecer estas coisas estudando história. Mas para o bem ou para o mal foram coisas que vivi. Resta-me contá-las, e se o que conto já serve um pouco às novas gerações, já é um consolo.

O filme é muito sensível, estou certo de gostará!

Obrigado pelo café! Um beijo.

Carla P.S. disse...

Assisti o filme. Tu tava certo.
Amei a sensibilidade do final.

Um brinde ao filme !

Mulher Vã disse...

Oi Álvaro.

Adoro essa incrível capacidade sua de escrever colocando tanta força nas palavras que são não para serem simplesmente lidas, mas sim digeridas, absorvidas, pouco a pouco.
Voce começou aludindo a seu texto anterior onde falou com conhecimento sobre o militarismo contrastando a política daquela época com hoje.
Mas aqui, volta no assunto por outro ângulo. “O que sobrou de tudo aquilo?” [uma pergunta de retórica muito bem colocada].

Vivemos na era do instantâneo, da globalização, da internet. As noticias de uma hora atrás já estão amareladas. A cultura do fútil, beleza fácil. Nunca o mundo esteve tão ‘unido’ [interneticamente falando], nunca as pessoas estiveram tão distantes. Nunca a solidão esteve tão em alta.

Hey Álvaro, já ouviu a expressão ‘tudo que é demais, transborda’, bom isso é coisa que meu vô costuma dizer, deve ser um ditado pessoal dele hehe. Acabo por concordar com ele no tocante às formas com que voce mencionou da noticia chegar até nós, taí algo que não dá [ou dá muito trabalho] controlar, como filtrar tudo que nos vem em forma de noticia??
Há muita sabedoria na frase “quem tem informação tem poder” e de novo concordei contigo.

Como filha dessa geração copy cola, posso dizer: nunca me senti tão perdida. Nunca fui ensinada a amar a pátria. Só sei ser brasileira na copa do mundo [e olhe lá].
Isso mesmo, é a banalização da vida [do outro]. Aqueles corpos encontrados caídos sem vida na calçada do anonimato. O que todos fazem? Desviam o curso, mudam de calçada, afinal um corpo caído na calçada ‘não pertence à minha alçada, pago meus impostos, alguém tirará o coitadinho dali, não eu’. Esse é o Brasil de hoje, a nossa realidade. A realidade dos que tem medo de se importar e acabar sobrando pra ela.

A questão não é ser pessimista, mas sim realista. Há mais gente ruim do que boas nesse mundo. Muitos que só querem se auto-proclamarem deuses sobre outros. Outro tanto que usa [e abusa] da religião para extorquir grana de corações sinceros. Droga! É um mundo falido hipócrita e desajustado!
Quisera eu ter nascido em outras épocas, quisera eu ter tido algo por que lutar, ter. Ter defendido isso com a vida.

Amar a pátria. Que pátria? Esse pessoal que só visa o enaltecimento próprio?

Me sinto frustrada, perdida. Dentro de mim há uma força que se agita de forma vertiginosa, querendo sair pra fora com violência. Queria ter pelo menos a oportunidade de fazer algo pelo meu semelhante.
Já te falei lá encima do meu vô [até imprimi seus textos e li pra ele, por sinal ganhou um fã]. Ele diz que só por demonstrar respeito pelo próximo, não furar filas, da a vez pra idosos, deficientes e gravidas, obedecer as leis, que já faço muito! Mas porra vô, isso não é obrigação de todo mundo?

Talvez isso de se revoltar é inato ao ser humano, vai saber.

Eu queria muito ter o mesmo otimismo que voce, meu querido...


Alvaro Vianna disse...

Meu espaço de comentários é mais rico que o de postagens.
Que inspiração, Vã!
Na verdade, é muito difícil fazer as coisas isoladamente, tanto hoje, como no passado. Só a adesão a algum tipo de organização pode permitir a canalização de intenções e ações. Difícil sugerir alguma; eu que saí de partido e de igreja. Mas também tem muitas questões puramente pessoais nestes abandonos. Se tivesse a cabeça livre pra pensar mais no mundo a minha volta, certamente tentaria me realocar ou em algum outro partido ou alguma ONG. Conheço muita gente boa que está sempre inserida em atividades que visem melhorar o mundo. E, acredite, é um trabalho que a gente não vê, mas funciona. Nos sábados de madrugada, o Serginho Groismann apresenta muito desse tipo de trabalho. Coisas com que já colaborei em outras épocas e nunca deixei de acreditar nelas.

Vã, dê um abraço no seu avô por mim. Certamente é gente muito boa.

Beijos

Mulher Vã disse...

O mérito é todo seu por me fazer postar tanto num unico comentario! Mas voce concorda com minha indgnação ou ela é infundada?

Voce já viu esse texto meu sobre os protesto de ongs? =P

http://citricaedoce.blogspot.com/2009/04/protesto-dos-protestos.html



[ainda vou postar no 'meu' texto, é que ainda to toda cheia! hahahaha]


smack!