quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ideologia: ainda quero uma pra viver?

Jovens são idealistas. Pelo menos é o que se diz deles. Contudo só conheci alguns assim quando eu próprio já não era tão jovem. Adolescente, vivi uma "cruzada" mental solitária contra as injustiças do mundo, inspirado por heróis como Che Guevara, Fidel Castro, Lamarca, Marighela... Mentira; era a época da repressão militar e um menino dos subúrbios dificilmente teria acesso àquelas biografias. Mais correto seria falar de Batman, Super Homem, Zorro... Mas estes eram heróis americanos, exceto o Zorro, e de forma alguma lutariam contra as injustiças sociais, a exploração capitalista, a fome no terceiro mundo... Acho que essa sede de justiça deve ter brotado tão somente pela visão do que estava a minha volta: gente sem direito a uma boa alimentação, ou a saúde e educação e as coisas básicas para se viver. Assim, quando Lula, ali pelos idos de 78, apareceu peitando os milicos, reivindicando melhores condições de vida aos metalúrgicos de aqui do ABC, identifiquei logo o herói que me faltava. E que figura de herói! Cabelos e barba desgrenhados, barriguinha saliente e um português bem limitado. Ou não tão limitado, uma vez que se fazia entender por todas as gentes, as importantes e as desimportantes. E assustava; principalmente as primeiras.
Quando o PT foi fundado, poucos anos depois, alinhei-me logo com o partido. Achava o máximo os movimentos populares que se seguiram, sempre contando com as bandeiras vermelhas de estrela no centro. Ah, as estrelinhas! Com que orgulho ostentei-as no peito. Com alguma vertigem também, para não dizer medo, porque apesar da abertura política, ainda eram os militares que mandavam e mais ainda desmandavam. Longe dos feitos revolucionários daqueles primeiros nomes citados acima, entrar na sala da diretoria de uma grande multinacional com uma estrela vermelha de plástico presa à camisa me dava um pouquinho, um mínimo, da sensação que muitos jovens da geração anterior devem ter vivido em sua luta e morte contra o poder opressor.
Eu era ateu por essa época, sou ateu hoje, mas por um bom período, ali pelos anos 90, tive minha cabeça orientada por um outro barbudo, cabeludo e comunista que não o Lula. Por motivos que não colocarei neste post - já o fiz em anteriores - conheci a Teologia da Libertação, outro terror para os poderosos; na verdade, um braço da Igreja Católica. Bispos, padres e fiéis se uniam em comunidades onde se estudava a proposta de sociedade igualitária dos evangelhos e os meios de se alcançá-la no mundo, tendo o oprimido como agente transformador. Claro que o PT era o partido preferido dentro dessas comunidades; os trabalhos de evangelização e politização se confundiam.
Passou o tempo. O PT finalmente chegou ao poder. E eu deixei o partido quando das denúncias de corrupção no Governo Lula. Da Igreja já saíra antes - mística, pra valer, acho que nunca tive. Mas, apesar da grande decepção com José Dirceu e companhia, acho que Lula tem mais acertado do que errado. Hoje o país tem o respeito da comunidade internacional, está saindo rapidamente da crise graças ao acerto na condução da política econômica. Claro que está longe do que sonhávamos ingenuamente naquelas saudosas e saudáveis, apesar de inúmeras, reuniões partidárias. Penso que aquele PT sonhador foi necessário e muito útil àquele momento político. É inegável a melhora do espectro político nacional, a par dos inúmeros escândalos.
Há ainda jovens politizados que se permitem ou anseiam por uma participação nos rumos do país. Muitas vezes com exageros; ainda ontem lia uma crítica sobre o que seria uma condução equivocada da UNE, distante daquela dos tempos da ditadura. Mas creio que seja melhor do que a passividade. A maturidade há de podar-lhes os excessos, sempre poda.
Eu, de minha parte, estou mais do que podado. Acompanho sem paixão o desenrolar dos acontecimentos. Creio que o país, longe de ser um paraíso, encontrou um rumo. Meu filho certamente precisará menos de um herói do que eu precisei. E, de fato, ele, apesar dos 8 aninhos, não se entretém com filmes ou desenhos de heróis. Mas surpreendeu-me outro dia com "achados" musicais que ele fez na internet. Mostrou-me, entusiasmado, clipes de Chico Buarque interpretando "Construção" e "Deus lhe Pague". Fiquei emocionado, claro.
Não sei se ainda tenho alguma ideologia, mas coisas que lembrem de alguma ainda me emocionam. Como esta canção da época de trabalho de conscientização popular.




9 comentários :

Carla P.S. disse...

Tentei ver o vídeo mas deu erro. Sobre o texto, adorei. Eu confesso que não nem um pouco engajada nas ideias políticas, tampouco sei de tudo que acontece no mundo. Longe de ser atéia, sou espírita engajada e apaixonada, e tento pergar uma das coisas que a filosofia mais preconiza:a caridade. Acho que fazendo o bem à mim e aos demais que convivem, até em pensamentos, já ajudo de alguma forma. Idealista eu sou, e só não gosto de inflexibilidade e falta de respeito. Gostei da escrita e das tuas ideologias, é disso que o mundo precisa, esperança raciocinada.
Um café, e "um trem pras estrelas".

Mulher Vã disse...

Olá, Alvaro.

Pode parecer piada, talvez voce nem leve a serio, mas sabe que as vezes sinto meio que uma 'nostalgia inexistente' duma época que nunca vivi, ou seja, sinto falta de lutar por um ideal, alguma coisa que acreditasse ardualmente. Quando o Brasil deixou de ser comandado pela ditadura eu não tinha nem cinco anos, e ao menos sabia escrever impeachment quando esse ocorreu em 1992. Sinto algo parecido com inveja daqueles que tiveram a chance de lutar por uma ideologia, por um mundo melhor poxa!
Que os jovens são idealistas não há duvida, mas falta em que basear esse idealismo, simplesmente não há.
Li seu post, te imaginei jovem e sorridente cheio de esperança por um mundo melhor. Mesmo que pelo PT, mas e daí?
O jovem de hoje não tem um herói em quem se espelhar, porque como cantou Cazuza, eles morreram. Mas pergunte se eles ligam, não estão nem aí com nada. A mídia é um pouco culpada por isso, porque ela parece se importar mais com os pinguins engraçadinhos que traz, do que falar da merda que bóia no mar, quando quebra na praia, e não é nada bonito.

Mas sabemos que não dá pra confiar em ninguém.

Como diz o Mestre Alborghetti:
"Só tem 3 coisas que a gente só faz 1 vez na vida: NASCER, MORRER e VOTAR NO PT".

E essa última eu já fiz. E olha aí a merda que deu.

Eu sinto a juventude de hoje, [eu incluída] meio sem rumo.

Agora te pergunto, qual foi a época que o Brasil foi mais 'rico' culturalmente falando? Eu lhe respondo, na época da repressão política! Hoje temos a liberdade pra falarmos/fazermos/escrevermos o que quiser [entre aspas] e olha a nossa 'cultura' como está.Preciso falar mais alguma coisa?

Não sei se consegui 'alcançar' o que seu texto pretendia, passou-se tanta coisa na minha cabeça, quis escrever tudo mas meus pensamentos são mais rapidos que os dedos.

Adorei sua visita, volte mais vezes.

Um beijo.



ps: [po, deu vontade de apertar a bochecha de seu filho]

Alvaro Vianna disse...

Obrigado, Carla e Vã, pelos comentários e pela preocupação em dar-lhes consistência. Veja, Vã, nem tudo está perdido. Num espaço tão pequeno como este se encontraram duas jovens muito inteligentes, com muito a oferecer ao mundo, cada uma da sua forma. Estou satisfeito. E os mártires do passado certamente também estão.
Beijos para as duas.

Simone disse...

Sou velha de guerra, cansada e talvez tão desanimada quanto você... Mas continuo aqui, acreditando no futuro e, também como você, emocionada com as descobertas do meu filhote.

Alvaro Vianna disse...

Se eu tivesse o teu nível de cansaço, já estaria contente, Si.

Beijão

Camila disse...

apesar de eu naum gostar de politica, gostei dos nomes qe citou :)
e dos suepr herois?me lembrou minha infancia, em que assistia a desenhos tdas as manhas


bejos

Alvaro Vianna disse...

Obrigado, Camila!
Se eu ainda tivesse a cabeça daquela época, faria um discurso pra te convencer a gostar de política. Hoje te digo para amar muito a vida, com toda a sua força. Assim virá naturalmente o interesse pela mecânica do mundo, e de seu país, em particular. Afinal, você vai ter todo o interesse em preservá-los.
Beijos

G. disse...

Nasci em uma geração pós conquista dos direitos políticos e pós Constituição de 88. Simplesmente não vivenciei as amarguras sofridas pela geração passada, apenas ouço falar. Não estou satisfeita com o comodismo que vivemos agora, muito embora tenha noção de que não faça nada pra mudar isso. A minha volta está cheia de "revolucionários preguiçosos", que reclamam, reclamam, mas nada fazem. Creio que sofremos um certo entorpecimento: é tanta notícia ruim, é tanta corrupção e desilusão recheando os jornais, que acabamos por nos acostumar. No momento, minha ideologia se resume a ser uma boa cidadã, não fazer nada de errado, não infrigir as leis. Mas será que não atrapalhando, estamos ajudando? Creio que não.
Ah, fiquei perplexa com seus filho de 8 aninhos apreciando as mais primorosas canções do Chico! Nossa, eu fui descobri-lo com uns 17 anos, e olhe lá. Um beijão!

Alvaro Vianna disse...

Acho natural, Gabriela, essa ressaca pós-redemocratização. E o aparente desinteresse dos jovens de hoje; além do "cansaço" dos velhinhos como eu. O que ocorre é que a necessidade de mobilização é menor, as instituições democráticas estão fortalecidas, independentemente do partido que esteja no poder.
Houve também uma desilusão com os ideais comunistas pelo naufrágio da experiência soviética e de outras nações. E a "elite intelectual" da juventude nas gerações passadas era francamente de esquerda. Hoje não sobrou nenhuma grande bandeira de luta, embora haja ainda muita coisa errada no mundo.

O assunto rendeu! Vou escrever um novo post!

Obrigado pelo comentário.
Beijo