Meu pai era fanático por futebol. Na juventude tinha sido centro-avante num time amador de Ribeirão do Sul. A lenda diz que o Tonhão era um perna-de-pau, mas há controvérsias.
Lembro-me dele muito vaidoso; jamais saía de casa sem que as roupas estivessem perfeitamente engomadas, sapatos engraxados e cabelos sempre tingidos, para esconder as cãs. Além de jogar bola, em sua juventude animava festas tocando sanfona. Tocava bem, isto eu mesmo vi, embora já não mais em festas. Esse seu mundo acabou ficando para trás com as responsabilidades familiares.
Viemos para o ABC tentar uma condição melhor de vida, eu e minha irmã muito pequenos ainda. Naqueles tempos vivíamos o “milagre econômico” do Delfim e dos milicos e não era difícil de se conseguir emprego; e o Seu Antonio começou a trabalhar numa metalúrgica.
Era um homem retraído, de pouca conversa. A propósito, ele e eu jamais conversávamos; vivíamos na mesma casa como estranhos, tínhamos dificuldade de ocupar um mesmo cômodo se não houvesse alguma outra pessoa que nos servisse de escudo. Para piorar, virei torcedor do Santos, o maior rival do Corinthians dele naqueles tempos.
Nas famosas greves do ABC comandadas por Lula, meu pai participou. Não que ele tivesse uma propulsão ideológica; os piquetes o forçaram a participar. Ainda assim, chegou a ir a algumas assembléias no famoso Estádio de Vila Euclides.
Aquele período marcou-me para a vida. Muitas das minhas opções posteriores tiveram ali sua gênese. A primeira foi o alinhamento com o PT, desde a sua fundação. Meu pai também se tornou um simpatizante, sem que um não soubesse do outro. Naqueles tempos dava medo declarar-se de esquerda, ainda que num universo tão restrito como o doméstico.
Ao final do jogo contra a França na Copa daquele ano, meu pai não ficou tão decepcionado com a derrota. Parecia então mais preocupado com umas dores que vinha sentindo. Começou dali há pouco uma bateria de exames. Descobriu-se um tumor no cólon que precisaria ser estirpado cirurgicamente. Ainda no mês de julho deu-se a cirurgia. Sem sucesso. Concluíram que não haveria nada a fazer além de tentar minorar a dor. Deram-lhe dois ou três meses mais de vida.
Já se passaram cinco meses e ele continuava resistindo, apesar da rotina casa-hospital. Na noite de natal tivemos que levá-lo mais uma vez à emergência. Não ficou internado, mas no espaço de tempo em que ficamos lá, deu-se um pequeno milagre; conversamos eu e ele. Falamos de saudade, de futebol de outros tempos, de como a vida era tranqüila no interior. Conversa de pai e filho. A primeira e a última.
As internações ficaram mais longas e os períodos em casa, mais curtos. Sabíamos que não demoraria o fim.
A vida continuava paralelamente e eu conseguira passar no Vestibular da Fatec, o meu último presente ao meu pai. As aulas começaram em março.
Na tarde do dia 27 daquele mês, uma sexta-feira, nos avisaram do hospital que meu pai tinha entrado em coma. Corremos todos pra lá. Nós o encontramos respirando por aparelhos. Curiosamente o seu cabelo ficara totalmente branco.
Vieram também alguns dos irmãos do interior e outros parentes e amigos. Foi uma noite muito difícil, passamos todos acordados naquela sala de espera do hospital. Pela manhã, nos convenceram a mim e minha mãe a virmos para casa descansarmos um pouco. Mal entramos em casa e chegou o aviso do falecimento.
Às vezes, quando vejo a chuva, vêm-me à memória uma cena da infância, na nossa casa no sítio; eu deveria ter uns três ou quatro anos: meu pai de pé observando a chuva pela porta da sala, vestindo uma capa grossa. Eu encostado às pernas dele também observando a chuva pela fresta da capa.
Te amo pai.
Um comentário :
Alvaro
além de outros quitutes vc tbém escreve menino???
Que coisa linda esse seu post!!!!
Parabéns!!!!
Gostei muito de ler... Foi... sei lá... tipo Anos Incriveis que passava na Cultura... vc assitiu???
Preciso retornar a postar as fotos!!!!
Quero ver se agora nas férias consigo!!!!
Valeu!!!
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