quinta-feira, 10 de setembro de 2015



Para P.


Outro dia fui a pé para o trabalho. Coisa de 10 km. Como entro às 14 h, caminhei sob o sol mais intenso, ainda que o do inverno metropolitano. Não foi ruim, ainda que a paisagem não ajude. O que gosto nestes passeios, apesar de certa dor nas costas a denunciar a idade, é poder pensar muito nas principais questões que me afligem sem que isso me pese como acontece em todos os outros muitos momentos de sedentarismo. Pobres de nós, escravos das distâncias urbanas, que entupimos nossas artérias de gordura e nossas almas de lembranças doídas. Atentem para o acento no í, embora doidas também sejam. O trajeto daquele dia incluiu a linha férrea que liga o ABC à capital e além. Teve as fábricas que dão a essa região pujança econômica e, lamentavelmente, muitos veículos automotores com suas fumaças e seus barulhos a tornar a caminhada bem menos agradável. Pessoas caminheiras é que se contaram nos dedos.
Como diz a Física, concordando com a impressão psicológica, caminhamos no tempo tanto quanto no espaço.
Naquela andança em que os passos representavam os dias desde que te conheci, refletia sobre como gastamos nossa energia com ilusões. Eu comia um chocolate, mas repunha apenas a que os quilômetros roubavam. Ou não; embora com nós homens esse placebo antidepressivo possa não ser tão eficiente.
Ao passar pelo viaduto da Capuava lembrei do tanto que já quis andar assim de mãos dadas contigo. Mais à frente até tentei me conformar com o fato de que houve uma caminhada real, ainda que sem as mãos unidas. Pensei também sobre o porquê de necessitarmos do contato real se toda sensação não passa de sequência de impulsos elétricos. E sobre o porquê dos inúmeros contatos virtuais em nada substituírem trocas de calores corpóreos ou mesmo fluidos. Existiria alguma forma equivalente de beijo telemático, para além dos repetitivos e frágeis emojis? Não, você há de concordar. Por tudo isso me conformava com o fim das conversas. A dureza do chão, amplificada a cada passo, me impregnava de realidade e me fazia querê-la mais que tudo, ainda que solitária como aquela simples ida ao trabalho. Pensei que a vida poderia sem bem mais completa. Não só para mim. Você nunca me contou de fazer longas caminhadas reais; conheço contudo muitos pormenores de seu trajeto pelo reino de Chronos. Muito dele igualmente só. Havia intensidade naquela ligação, ora por streaming de dados nas hipervias, ora por pontes eletromagnéticas. Ah, mas o desejo do toque. Nisso não havia co-municação. Então a ilusão, essa consumidora gulosa de energia vital. Desde lá a aceitação da vida sem toque: nos bancos de ônibus, nos vagões do metrô, nos pontos ou plataformas de espera.
Minha querida P., eu te amei. E digo que não sei mais o significado exato desse verbo. Sei que exprime algo intenso, dominante, ao mesmo tempo doloroso e prazeroso; algo que nos amplia para muito além de nós mesmos. Um não sei quê que permite qual um buraco de minhoca, a transição por dimensões inimagináveis.
Hoje não caminhei. Preferi escrever, depois de meses, depois de quilômetros. Do real para o real. Espiral ou círculo, não sei, a paisagem é sempre muito igual. As lembranças e os sentimentos que se vão indo: bagagem pesada demais para carregar por uma eternidade ou por uma estrada da qual só se vê, no limite, uma paradoxal aproximação assintótica de linhas paralelas.

A

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bem aventurados os pobres de espírito



Está circulando pelas redes sociais esta notícia correta da atitude do presidente uruguaio, José Mujica, de doar 90% de seu salário a pequenas empresas e Organizações Não-Governamentais que trabalham com habitações populares.
Eu reconheço que a nossa presidenta Dilma esteve para doar algo muito mais valioso que dinheiro; a própria vida, nos porões da ditadura militar. Mas gosto desta postura do Mujica. Vejo-o num contexto sulamericano que se opõe à política neoliberal, ditada por Washington. Então, Mujica, Evo Morales, Rafael Correa, Hugo Chaves, Cristina Kirchner e a própria Dilma vêm transformando este velho e desacreditado continente em algo bem menos distante da Pátria Grande sonhada por Bolivar e San Martin. Mas gosto de fazer contas. Então vejamos: Salário da Dilma, 20 mil, dividido por 200 milhões de brasileiros: R$ 0,0001 per capita por mês Salário do Neymar, 2 a 3 milhões de reais: R$ 0,01 a 0,015 per capita por mês PIB brasileiro, 5 trilhões de reais: R$ 2000 per capita por mês PIB mundial, 140 trilhões de reais divididos por 7 bilhões de seres humanos: R$ 1700 per capita por mês. Como se vê, o dinheiro até é pouco para todo mundo. Então a questão é filosófica: de quê o ser humano realmente precisa? Para Mujica, certamente não são os bens materiais o principal. A Nova América talvez redescubra valores ou invente outros mais significativos que os ditados pelo grande capital. Quem sabe? Tenho grandes esperanças. Feliz 2013 para todos nós!

sábado, 28 de janeiro de 2012

O Brado Retumbante

Sobre a minissérie global

Como obra de ficção, interessante pelas atuações e pela tentativa de emulação da vida política nacional. As coberturas jornalísticas, desta feita, pareciam mesmo extraídas de veículos reais. O mais frequente, em obras anteriores, era a caricatura pobre, nesse aspecto particular.
Fico tentando imaginar, porém, o que levou a Globo a veicular uma série mostrando um heroi político solitário nestes tempos. Verdade que a corrupção está longe de ser derrotada. Mas é ainda mais verdadeiro que Lula e Dilma representam em suas pessoas algo até melhor do que Paulo Ventura. Se estes não conseguiram derrotar a corrupção é porque se trata de metástase. Tentar eliminá-la pode significar a morte do próprio doente. É o que me parece, por mais que isso me doa.
O alardeado apartidarismo do presidente fictício é outra falha ideológica que considero grave. Na dramaturgia tudo vale, mas como disseminação de opinião, preferiria uma defesa de instrumentos institucionais, não de quixotes ocasionais. Este país ou qualquer outro, só se firmará com partidos, sindicatos, imprensa, ongs e todos os atores políticos sendo institucionalmente fortes. Algo que vai demorar, não tenho dúvida, mas são as sementes que quero ver plantadas. E bradadas. Retumbantemente.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O horror que se supera a cada vez

Perdoem-nos, crianças, o mundo horrível que demos a vocês.

Crianças são o nosso perdão nessa instância penitenciária que chamamos de vida.

Há quem diga que uma criança que morre vira anjo.

Não, Wellington, eu não queria que você tivesse morrido criança.




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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Black friday

"O horror não foram as chamas. O lixo dos pensamentos transformados em realidade é que era o gozo do demônio. Era a humanidade sem os filtros da educação e do condicionamento. Como já o era o Senhor dos infernos. Não um pesadelo interminável, mas um tempo em que seria preferível o pior de todos os pesadelos. Nada de estrelas caindo, mas paisagens áridas e extremamente brilhantes. Não o medo do que se esconde no escuro; ao contrário, era a obrigação de se ver tudo. E se fazer tudo. A dor nem era tanta a do corpo. Mas nos outros corpos. Nos dos inocentes que se viram sem céu. Crianças atiradas pelas janelas por seus próprios pais. Ou..."

Chega. Escrevi isso ouvindo "Black Sabbath", a faixa que tem o mesmo nome da antológica banda inglesa. Achei inocente a letra, desproporcional à impressão causada pelos graves de baixo e base, além da incrível voz do Ozzi. A evolução dos tempos trouxe também uma evolução do horror. Ou talvez da nossa capacidade de descrevê-lo. Pode ser que a absurda exposição que cada notícia tétrica alcança, exija que da próxima vez se produza algo mais pesado a fim de se conseguir o mesmo impacto. Derrubar as maiores torres do mundo seria algo impensável para terroristas de 1969, ano da gravação de Black Sabbath. Cidade de Deus, o filme, também mostra uma evolução do horror assim, concordam?

Desculpem. A sexta nem está tão black como pode parecer. Mas é muito black pensar que não vai melhorar.



quinta-feira, 17 de março de 2011

A bolha

Era uma bolha. De sabão. Tensão superficial incomum. Era um dedo. Comum. Um dedo como outro qualquer. Que tentava estourar. A bolha. Colorida. Enorme pelo que tinha de desconhecido. Pelas promessas. Pinhata.
Está ainda inteira. Só que sem cor. Talvez até menos esférica. Menor. Bem menor. Esquiva igual. O dedo. Um dia ainda acerta o ângulo de incidência. Razão de ser de todo dedo que se preze.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Reflexões de um ateu quando está à toa

Perdoem-me as amigas Veronika, Michele e Natália, (e outros amigos que professem alguma crença). Mas sei que as três respeitam a liberdade de pensamento. E que pensam; e muito bem, sobretudo. Gostaria antes de deixar claro que meu problema não é exatamente com a existência de Deus, mas com as diversas versões de Deus de tantas religíões e com a fragilidade argumentativa. Outro dia, falava com um pastor que antes de tentar convencer os descrentes, os religiosos deveriam tentar chegar a um consenso entre si. Bobagem, claro. A menos que as tecnologias de informação globais provoquem num futuro distante alguma equalização, como de resto pode acontecer com diversos pontos culturais, como língua, moda e organização social. Na política, os recentes levantes populares contra ditaduras antigas, na África e na Ásia, já parecem apontar para a disseminação de modelos que aparentem ser mais aperfeiçoados; no caso, o democrático.
Pois, então, não tenho necessidade de afirmar descrença em Deus. O "ateu" é só para facilitar as coisas. Apenas uso a Lex Parsimoniae: "entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade)*. Ocorre frequentemente entre os religiosos justificarem a existência de Deus pela complexidade das coisas e sobretudo das coisas vivas. Concordo que sejam assombrosos os funcionamentos, que ainda não os conhecemos de todo, desde estruturas atômicas e seus zumbis quânticos, passando pela infinidade de massa e energia em movimento espaço adentro e chegando ao abismal desenvolvimento do cérebro humano. Só que dar a Deus o crédito para a criação disso tudo significa acrescentar complexidade de ingredientes não estimável a essa já farta e suculenta sopa cósmica.
Há indícios de vida nesse planeta em data tão longíqua quanto 3,6 bilhões de anos. Tempo absurdamente extenso para que o acaso produza suas modificações nas estruturas vivas, a fazer algumas sucumbirem enquanto outras se fortalecem no sentido de postergarem sua permanência como espécie. Repito, não é desacreditar de uma entidade criadora, é tão somente aceitar as explicações mais simples e que estejam em consonância com as observações.
Também gostaria de acreditar em um Paraíso post mortem, onde a felicidade fosse possível e eterna. Eu já me contentaria com algumas horas. E nem precisaria do Paraíso. Na Brasilândia ou no Campo Limpo já estaria de bom tamanho. Mas as observações mostram apenas corpos que se decompõem; há 2 ou 3 milhões de anos, se contarmos apenas os humanóides. Essa é a imagem que eu tenho da felicidade: longa e indolor decomposição do corpo. Depois a eterna viagem de nossas partículas, para outras vidas, outras galáxias ou universos inteiros.


*citação em latim é muito pedante

terça-feira, 8 de março de 2011

Às porta-bandeiras de lutas!

Deviantart

Tem algo em que esse blog é definitivo: em sua admiração pelo feminino desse mundo; à mulher que deu à luz o homem arrogante, dominador, belicista, destruidor de belezas, mas que o está recriando em moldes mais apreciáveis, carinhosa e obstinadamente.
Parabéns às mulheres que estão a nos ensinar o verdadeiro significado da palavra luta. E por nos mostrar, aos homens, que o nosso verdadeiro lugar é ao lado.
Num país que soube eleger uma mulher tão valorosa ao seu posto mais importante, esse dia 8 é ainda mais especial.


Um grande beijo a todas. Particularmente às queridas seguidoras desse blog, sempre tão amáveis em seus comentários.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cio da terra (to live is to die)

Hoje, ouvindo Chico, emocionei. Coisa rara, nestes tempos. Quase nada brota. Esterco não falta. Falta o resto. Sementes boas. Sementes que não sejam mortas por predadores antes mesmo do plantio. A grande arte, a poesia, a emoção são as flores mais belas do jardim da existência. De onde vêm, ervas daninhas? De que inferno vêm estes diabos?
Em seguida, fui ouvir Metallica. Porque o mundo que tem o chuvisco que ressalta o verde também tem trovões e relâmpagos, nas tempestades. E não é que daria para somar o cio e a morte? Se eu soubesse música. Meio Chico Science. Eu queria muito mais que aquilo, contudo. Artista sem dom que sou, não será possível. Mas eu garanto que ficaria muito bom.
Nascimento e morte na extensão de uma canção. Na relatividade einsteniana, curto e comprido podem ser a mesma coisa. Tudo depende do referencial. Ou da paciência de se ouvir.
A poesia brota; jovens egípcios vão à praça ajudar a parir a liberdade; em outros jovens a idiotice abbbunda; o morro cai sobre as nossas cabeças. O fim das vozes no meu rádio.
Quero uma chance de tentar viver com dor, mas também com algum sabor.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A dança das formigas

Hoje percebo - são necessários ritos para vir ao mundo, passar pelas portas do nascimento, passar pela infância, da puberdade à idade madura. Cada passagem exige seus rituais de iniciação, abrir caminhos, conjurar o medo e depositar-nos na outra margem com plenitude e alegria, com dor quando necessário, mas com grandeza.

Cada hora - a da separação, do reencontro, da morte e do nascimento, deve ser vivida inteira. Grávida de sentido. Pois cada momento se marcado de existência faz com que o cotidiano em vez de desperdiçado sob o véu azul [do céu] e logo rasgado pelas ilusões desfeitas, será vivido em mais modestas cores, mas com toda a grandeza da simplicidade. Cheio de grave e único sentido que cada momento nos coloca. Então, só então não haverá mais profano.

Pois eis que tudo é sagrado. Com todo cuidado, meu amor...

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Tucandeira, a dança das formigas - é de longe, entre os rituais indígenas de iniciação um dos que mais se destaca da tribo Sateré-Mawé. Trata-se de uma cerimônia ligada à iniciação masculina: quem consegue superá-la pode ser admitido na comunidade dos adultos. A dança rítmica começa com os cantos e vai até o momento em que se tem certeza absoluta de que o candidato cumpriu a prova, demonstrando toda sua coragem.




Reproduzido do blog Colorindo os Modos, da minha grande amiga Vã

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O que poderia acontecer de diferente, hoje?

Fico surpreso por se aspirar à eternidade quando tantos sequer dão conta do infinitésimo que vivem. Mais tempo de vida é mais tempo para se perder crenças (ou ilusões, se prefere). E sabores; principalmente aqueles que só se pode imaginar; que nunca, nunca mesmo, se vão tornar reais.
O conhecimento é a pior das torturas. Sobretudo reconhecer que a consciência é um câncer da vida, uma anomalia. Daí que toda poesia e toda arte, toda ideologia e toda religião não passam de paliativos. Hedonistas até podem abrir mão destes remédios. Mas o prazer não é bem universal - longe disso - , nem sustentável, como se percebe.
Política e ciência são produções intelectuais menores, mas não criam ou repercutem ilusões. Mantém a vida extra-biologicamente. E nesse sentido criam bases para as grandes utopias. Servem bem também àqueles para quem ter equipamentos de alta tecnologia e luxos industrializados é o que vale a vida.
Querer dividir com alguém especial essa estupefação que é o viver é apenas a maior e mais dolorosa das ilusões.







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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Máquina do tempo que se sente

Nunca se está imune. Isso é bom. Imunidade ao desejo pela vida é o mesmo que uma morte lúcida. Um cérebro preservado num pote de vidro que vê o passar do tempo sem nenhum sabor. A árvore em frente cresce; desenvolve os galhos e folhas; dá flores e frutos; perde a folhagem; seca. A paisagem seca. O sol se avermelha e cresce. Vermes gigantes passeiam lentamente. O pote cai e se quebra. Um meteorito que se choca violentamente contra o solo é a última visão. Emoção nenhuma em qualquer fase.
Eu não estava imune. Que bom. Os minutos passam com frio na barriga e leve dor no coração.



Abraço para H. G. Wells

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O teu nome é daqui

À margem do Tuz, pensava em boa parte da história que se tinha passado ali. Apesar disso, não se concentrava muito. Toda História, por maior que seja o seu H, começa no nascimento de quem a pensa. E são só letras em livros. Maior que essa é a que se escreve com o próprio sangue. Aquele que pulsa rápido por veias e artérias quando o natural do existir se confunde com o imaginado. Duas vidas se entrecruzando, de fato: a história que é e a história que se quer ser.
Uma outra imagem ajudava a conduzir aquele corpo, entretanto. Tinha nome, endereço, telefone, e-mail. Beleza ímpar. Outra história. Tão complexa quanto a dele. Força nuclear aquela. Ele orbitava. Não pelas leis newtonianas, mas as do amor. A essência maior da história-imagem. Talvez a única.
 As caminhadas em torno daquela salmoura são longas sempre. Como a relembrar antiquíssimas rotas. Como que a querer fortalecer os desejos tanto quanto os músculos da história-corpo. Todos exaustos. Mas com um destino estipulado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Viva!

Significativa sob vários aspectos a vitória de Dilma Rousseff. Por ser mulher, pelo passado na luta armada contra a ditadura, pela sequência no poder de um partido moldado de baixo para cima. Sou um otimista quando avalio a evolução humana. Nosso país, na eleição desse 31 de outubro, deu vários passos adiante nesse caminho evolutivo. Embora eu reconheça que poucos enxergarão essas maravilhas presentemente. Se nem eu próprio me sinto radiante. É que a felicidade não precisa vir com paixão. A Dilma, em seu discurso de vencedora, foi também bastante comedida, emocionalmente, como acredito que deva ser mesmo. Afinal, o que se anseia, como uma das metas principais, a erradicação da miséria, isso sim seria motivo de uma imensa alegria de toda pessoa que merecesse ser chamada de humana. Achei importante o discurso sereno. Demonstra espírito republicano. Reconhecimento de que a vitória não tem que ser sua, pessoal, mas de um projeto de nação. Estamos todos de parabéns, mesmo que alguns não reconheçam ou aceitem isso.

sábado, 30 de outubro de 2010

Debate

Acabou há pouco o debate entre os candidatos à Presidência. A meu ver, morno. Muito diferente da tônica da campanha que teve ataques intensos ao governo e à candidata Dilma, por parte da coligação que apoia o candidato Serra .
Campanhas políticas - e isso não é exclusividade brasileira - são uma coisa incivilizada. O objetivo principal é colocar o seu grupo ou partido no poder. O bem do país é secundário. O debate é importantíssimo e uma oposição ativa é fundamental para o processo democrático. Mas eu sonho em ver, algum dia, ideias e princípios no plano principal da disputa. Acho que isso poderá vir com o amadurecimento dos eleitores. Nessa eleição, particularmente, considerei que a quase invariabilidade dos índices mostrados pelas pesquisas prova que o eleitor não está se deixando influenciar tão facilmente por campanhas difamatórias. Apesar do evidente apoio de parte da grande imprensa ao candidato Serra, mostrando ostensivamente em horário nobre ou em reportagens de capa supostos escândalos envolvendo o governo e a candidata Dilma.
No pleito de agora, muito mais que factoides ou projetinhos de última hora, o que se compara são duas propostas de governo que tiveram ambas oito anos para se mostrar à nação brasileira. E a resposta do eleitorado é inequívoca. O que se quer é a continuidade do modelo atual, que longe de ser perfeito, deu mostras do que é um governo de origem nas classes mais humildes e amplamente voltado para estas classes. Mas com a inteligência de buscar soluções sem confrontos com o poder mundial, nem, tampouco, com submissão, como era comum nos governos passados. Provou, durante a grave crise econômica, que o Estado tem que ser forte, sim. Porque governos verdadeiramente democráticos governam para pessoas e não para empresas. Até se pode permitir que elas cresçam e se fortaleçam. Deve-se fazer isso. Mas estes resultados têm que atender aos interesses de toda a sociedade. Nenhum banco brasileiro quebrou durante a crise, ao contrário de gigantes americanos e europeus. Nem foi necessária a injeção maciça de dinheiro em nenhuma instituição. Prova de que ser de esquerda não quer dizer que se precise ser burro. Não dá pra revogar a Lei da Gravidade porque pobre não pode comprar paraquedas. Assim, muito do que foi feito durante o governo Lula pareceu uma adesão ao modelo capitalista internacional; quando o que se fazia e se faz é uma política econômica pragmática, mas com um bom princípio de distribuição de renda com programas como o bolsa família ou o ProUni e o aumento significativo de crédito. Além do número de empregos criados; três vezes maior que no governo anterior.
Diferença fundamental também foi o apoio às empresas públicas e o seu fortalecimento. Por mais que os tucanos tenham querido desmentir, os fatos mostram que eles são privatistas por princípio. Não à toa têm como aliados o antigo Partido Liberal, hoje DEM, representantes da direita mais retrógrada deste país. Privatizaram telefonia, eletricidade, estradas etc; e queriam, sim, privatizar a Petrobrás. Durante o governo Lula ela se transformou na quarta maior empresa do mundo (segunda na área de energia). E a descoberta do pré-sal e a sua exploração vai dar ao Brasil uma dimensão ímpar no cenário mundial, com reflexos ainda não totalmente estimados na melhoria da qualidade de vida de todo o nosso povo.
Não acredito em surpresas no domingo. A vantagem indicada pelas pesquisas é muito folgada. Comemoro desde já que após termos pela primeira vez um operário no cargo mais importante da nação, vamos ter lá uma mulher. Outra prova do avanço que este país está tendo, em termos de consciência política. A estrada é longa, e talvez nem tenha fim, mas estou confiante de que o rumo está certíssimo.



 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu sei que você não teve escolha

Morreu logo depois de ouvir Burn. Corte profundo e vermelho. Até gostou de ver. Último prazer. Talvez o único. Ainda teve tempo de se imaginar naquele Riff. O sangue era pela força e a velocidade empregues às cordas. Propositalmente branca. A guitarra. Propositalmente sinuosa. Quadril feminino. A essência de uma vida num solo. Não sobre um palco. Numa cadeira lateral. À margem. Como a vida toda. Só que desta vez ouviriam. Milhares de kW.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Dilma

Defendo o voto consciente. No entanto, acho pouco provável que alguém consiga escolher bem um candidato em período de campanha. Quando muito, se podem eliminar aqueles que evidentemente são despreparados. Aqui em São Paulo, o cômico Tiririca tem zombado do civismo que deveria marcar uma disputa democrática e no horário gratuito produz piadas grosseiras do tipo "vote no Tiririca; pior do que tá, não fica". Mas não só ele. Tem a candidata Cameron, 1969, que com vestimenta sensual e voz lasciva diz que "é preciso votar com prazer". E não vai aqui nenhum preconceito contra a possível profissão da moça. Ela tem tanto direito a pleitear uma vaga legislativa quanto uma médica, uma dona de casa ou qualquer outra profissional. Curioso é que a legislação havia vedado aos programas humorísticos produzirem quadros que se referissem a candidatos. Contra-senso felizmente anulado pelo STF.
Pior que exemplos apontados é ver ainda um Paulo Maluf, com toda a sua imensa cara de pau, pedindo votos com o seu mesmo discurso e o mesmo padrão que temos visto ao longo destas três últimas décadas. Felizmente, trata-se de cachorro morto, considerando todo o mal que já fez a esse Estado e a impossibilidade de repeti-lo. Há também exemplos de pessoas muito boas como seres humanos, mas com um discurso absolutamente ultrapassado, como o dos candidatos do PSOL, do PSTU  e de outros. Gente de quem eu já estive ao lado, e até adoraria estar de novo, desde que fosse para tomar um café.
Há uma entrevista da Dilma Rousseff no programa do Jô, de 2008, muito interessante. Embora razoavelmente longa para os padrões de internet, acho bastante conveniente como subsídio para um julgamento mais eficaz do que o que se possa ver na campanha televisiva, que é sempre demasiadamente produzida e artificializada. Ou que se perde em denuncismo, como o que prolifera nas hostes psdbistas, pela iminência de uma derrota já no primeiro turno.

Entrevista Dilma Rousseff no Programa do Jô

domingo, 8 de agosto de 2010

Pai possível

Na verdade, não sei que importância tenho na vida do meu filho, agora que nos vemos tão menos. Sei que se orgulha de torcer para o mesmo time. E me pede massagem nas costas antes de dormir, quando fica comigo. Não gosto dessa sensação de estar sempre em dívida com ele. Mas é um menino que não reclama. Parece feliz. Resisto à tentação de acreditar tê-lo visto mais genuinamente feliz em outros tempos. Só o agora e o de agora em diante importam.
Posso dar exemplos de ética, de respeito absoluto pelo outro, de constância. Ensino matemática, história, como o ensinei antes a ler e a escrever. Incentivo à astronomia e ao futebol, claro. Jogamos xadrez e construímos brinquedos juntos - não gosto e não recomendo os comprados, com raras exceções.
E tenho a obrigação de ensinar que existe vida após a morte. Não no sentido religioso.

Gabriel - 9 anos

quinta-feira, 5 de agosto de 2010